ESPORTES

Sobre política, esportes e opiniões em público

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"Evento esportivo não é lugar de manifestação política", diz o título de uma coluna da GQ que rodou bastante pelas redes sociais esta semana. Quem assina é Tiago Leifert, global que subiu na TV como jornalista esportivo e hoje comanda programas de destaque na programação de entretenimento do canal.

Sobre política, esportes e opiniões em público

Entre outras coisas, Leifert argumenta que “quando política e esporte se misturam dá ruim” e que esporte é entretenimento do tipo “desligamento da realidade”. O texto encerra com a frase “deixem o esporte em paz”, como se o esporte por si só já não fosse uma fonte grande de conflitos dentro e fora das arenas - mas deixemos isso para outra discussão.

A opinião de Leifert sugere um grande desconhecimento da história do esporte (mas só sugere - já chego lá). De Jesse Owens a Colin Kaepernick, incluindo Muhammad Ali e seu protesto contra a Guerra do Vietnã, o gesto dos Panteras Negras em 1968, Arthur Ashe na África do Sul do Apartheid e tantos outros casos… Alguns dos momentos mais famosos do esporte estão ligados a manifestações políticas.

Como bem escreveu Fernando Cesarotti na Vice, “tudo na vida é política”. E muitos daqueles atletas que chegaram a uma posição de destaque - a ponto de aparecerem na sua TV - superaram preconceitos, tiveram problemas financeiros, passaram fome ou foram vítimas de violência. Quem vai dizer a essas pessoas que esporte não pode envolver política?

A maior ironia disso tudo está estampada no caso de Colin Kaepernick. O ex-jogador do San Francisco 49ers, da NFL (futebol americano), decidiu se ajoelhar durante o hino americano para protestar contra a desigualdade racial nos EUA. Levantou um acalorado debate, colocou o assunto nas casas do país inteiro. No ano seguinte, nenhum time da NFL quis contratá-lo.

O texto de Leifert para a GQ usa Kaepernick como exemplo de que política não deve se misturar com o esporte. Enquanto isso, a GQ americana elegeu Colin Kaepernick como o “Cidadão do Ano” nos EUA. A Sports Illustrated, a mais conceituada revista esportiva dos EUA, premiou Kap com o “Prêmio de Legado Muhammad Ali”. Veem a diferença?

Mas que ninguém se engane: Leifert é inteligente e conhece muito bem todos casos bacanas em que atletas se manifestaram politicamente. Ele sabe os quandos, os comos e os porquês. Seu discurso é o discurso da TV Globo, a emissora em que profissionais ficam constrangidos, sem saber o que fazer, quando veem um “Vampiro Neoliberalista” numa escola de samba.

Que Leifert não seja condenado por isso. Atire a primeira pedra quem usa redes sociais para discordar de seu empregador diante de milhões de pessoas. Mas que não haja equívoco: se chegou aonde chegou, é porque Leifert, além de competentíssimo no que faz, sabe navegar na - ahem - política da Globo. E enquanto jornalistas esportivos discordam de todos os lados, diretores aplaudem no Jardim Botânico.