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Décadas de uma Globeleza com viés racista; entenda

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Décadas de uma Globeleza com viés racista; entenda

Apesar de uma parcela do público ter usado as redes sociais para criticar a versão de 2018 da Globeleza, alegando que várias partes do comercial são imagens usadas ano passado, o que me deixa feliz é perceber que Erika Moura, atual cara da atração, não está completamente nua sambando numa onda de objetificação do corpo feminino.

A “mulata Globeleza”, termo usado para a mulher que é eleita para a atração, sempre foi um marco de como o Brasil vê sua população: sendo racista e machista. Primeiro, porque mulata é um termo terrível para se dirigir à pessoas negras. Com uma sede por deixar “branco”, morena, mulata que advém de mula e parda, que veio de pardal, um pássaro “chulo”.

Sempre seminua, coberta de glitter e paetês, sambava na TV de todas as salas da tradicional família brasileira que ama Carnaval e não vê nenhum problema nisso, mas acha um absurdo duas meninas se beijarem num programada para jovens.

A história da Globeleza

O personagem foi criado no início dos anos 90 pelo e sempre dirigidas pelo designer Hans Donner. Sempre com uma mulher negra seminua, a única transformação por anos foi a pintura na pele de Valéria Valenssa, que foi a Globeleza por anos. Com algumas transformações e tentativas de inovações, o personagem já foi animada ou trouxe algum outro elemento, mas sempre mantendo o padrão estético.

Quando chega janeiro, e todos começam a falar de Carnaval, a Globo libera a nova versão. Esse ano, igual ano passado, finalmente a Globeleza não surgiu nua e apostaram na diversidade, mostrando trajes e danças de outros carnavais pelo Brasil.

Décadas de uma Globeleza com viés racista; entenda

A objetificação do corpo da mulher negra

Historicamente a objetificação e embranquecimento da mulher negra para torná-la “aceitável”, já foi discutido por várias ativistas. Um dos casos usados para exemplificar a prática que persiste até hoje é a história de Sara Baartman.

Sara pertencia a uma família khoisan, nascida na atual cidade de Cabo Oriental, na África do Sul. Quando estava servindo numa fazenda de holandeses, o irmão do seu patrão sugeriu levá-la para o Reino Unido para se exibir e assim torná-la rica.

Foi exibida por toda a Londres como um animal num zoológico. Também foi alvo de estudos para comprovar que mulheres “semelhantes” a ela estava mais próximas dos macacos do que dos humanos, tendo direitos, respeito e humanidade completamente esquecidos.

Também foi comprada por um domador de animais que a prostituiu e violentou. Sara terminou a vida como alcóolatra, obrigada a continuar a se prostituir para se manter, tendo sido analisada, medida e tocada contra sua vontade por toda a vida.

Por fim, do seu corpo foi feito um molde que ficou exposto por anos em museus. Suas genitálias e cérebro foram preservados e até os ossos foram expostos. Sara nunca teve direito a um enterro.

Décadas de uma Globeleza com viés racista; entenda

Construção social x entretenimento

Essa construção social racista, que separava uma mulher negra do “normal” de uma mulher branca, colocando seus traços físicos como algo animalesco e seu intelecto como algo menor, é algo perpetuada até hoje nas entrelinhas.

Seja pela objetificação do corpo, por frases como “mulata tipo exportação” ou até o tipo de sexismo e machismo que elas são expostas. As mulheres negras ainda são as que mais morrem no Brasil e vítimas de números que só crescem de violência contra mulher.

Pode parecer pouco o simbolismo de uma Globeleza sambando seminua na sua TV, mas existe toda uma construção, contexto e realidade racista que leva esse tipo de conduta a ser aceito.

E você, comemorou a nova versão da Globeleza?