O novo agente da política brasileira

O novo agente da política brasileira

EPEP
Autor EPEP
Artigos EPEP
Coleção Artigos EPEP
O novo agente da política brasileira

Por: Matheus Cadedo 

A eleição para a presidência do Senado Federal, realizada entre os dias 1° e 2 de fevereiro, foi marcada por diversas controvérsias. Discussões acaloradas, roubo de pasta, tentativa de fraude eleitoral, presidiário fiscalizando a votação, acusações de interferências indevidas do judiciário e brigas sobre quem deveria comandar a sessão foram pontos destacados da primeira reunião da câmara alta. Entretanto, em meio a essas confusões, via-se um fenômeno interessante. Grande parte dos senadores e senadoras, ao votarem, levantavam suas cédulas e tiravam uma foto ou gravavam uma live, divulgando o sufrágio nas redes sociais. Com isso, podemos constatar algo que até então se desconhecia; a influência das redes sociais na tomada efetiva da decisão parlamentar.

Até o dia 31 de janeiro de 2019 dava-se como certa, pelo Governo, agências de notícias e por grande parte dos parlamentares, a vitória do Senador Renan Calheiros (MDB-AL) para ocupar a presidência do Senado, cadeira esta que já havia pertencido ao alagoano em quatro oportunidades anteriores. O parlamentar não contava, entretanto, com um empecilho central: o poder das mídias sociais. Graças a isso, o senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), considerado do “baixo clero” político de Brasília, desconhecido pela maioria, chegou a um dos cargos mais importantes de nossa República.

Para ocorrência deste fato inédito foi necessário, primeiro, burlar o escrutínio secreto da votação, previsto no regimento interno do Senado e determinado pelo presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffolli, na madrugada de sábado (dia 2), após uma tentativa no plenário de determinar o voto aberto no processo. A votação secreta beneficiaria Renan Calheiros, tido como “representante da velha política”, envolvido em polêmicas que vão desde o uso de aeronaves da FAB para fazer implante capilar, até ter participação em diversos esquemas de corrupção, tendo sido aliado tanto do PT (Partido dos Trabalhadores) quanto do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) no passado.

Entretanto, observou- se nas redes grande mobilização a favor do voto aberto. Eram diversas as postagens contra a decisão de Toffolli e as críticas à Renan e seu “núcleo duro”. Para se ter ideia, a hashtag “#VotoAbertoSimRenanNão” era um dos 10 assuntos mais comentados do Twitter na tarde de sexta feira (dia 1°). Em certo momento, a tag registrou a terceira colocação nas paradas mundiais da rede social. Entre os dias 1° e 2, o nome “Renan Calheiros” foi citado mais de 1,6 milhões de vezes no Twitter, aumentado a “pressão popular” para que os senadores abrissem seus votos.

A participação das redes não parou por aí. O recém empossado senador Jorge Kajuru (PSB-GO), por exemplo, realizou uma série de enquetes, no facebook, para decidir em quem deveria votar. O político, que até então declarava apoio ao candidato Reguffe (sem partido-DF), acabou votando em Davi Acolumbre (DEM-AP), após mais de 18 mil pedidos de seus eleitores na rede social.

Diante a repercussão crescente nas mídias sociais, senadores como Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) e Mara Gabrilli (PSDB-SP), que na primeira votação (anulada por fraude) não haviam revelados seus votos, resolveram torná-los públicos, dirimindo as chances de vitória de Renan. Outros, como Antônio Anastasia (PSDB-MG) e Lasier Martins (PODE-RS) resolveram declarar seus votos no Twitter, favoravelmente ao candidato do DEM. Diante o cenário, o candidato emedebista resolveu renunciar à candidatura no meio da eleição, garantindo a vitória de Davi. Mas, afinal, o que tudo isso pode significar para o nosso sistema político?

Sobre os aspectos positivos, podemos dizer que se cria um meio mais eficiente de prestação de contas (accountability) do eleito para com o eleitor. Se antes, após às eleições, este não tinha como acompanhar a atividade de seu deputado ou senador, hoje basta segui-los nas redes sociais para ter informações em tempo real de suas atividades. O mais interessante é que mídias como o facebook, instagram e twitter permitem não só a disseminação da informação, mas a expressão direta da opinião do cidadão ao seu representante, tudo feito instantaneamente. Antes, não havia uma forma acessível e fácil do eleitor conhecer como seu parlamentar se portava no Congresso. Hoje, basta uma pausa para um café e um smartphone na mão para saber, em tempo real, como um político está se comportando em uma votação ou deliberação, opinando sobre o assunto. Este efeito, reproduzido de forma massiva, pode fazer com que um político mude sua conduta diante o clamor popular das redes e do medo da reprovação por suas atitudes.

Entretanto, há de se destacar também os pontos negativos. As redes sociais podem se tornar, como já vem sendo observado, um centro de disseminação de fake news. É comum observar políticos divulgando informações de procedência duvidosa ou exageradas que atacam grupos ideologicamente contrários ao seu, fazendo-se um discurso extremado sobre mera especulação. Em outras palavras; para fazer sucesso nas redes é preciso polemizar. Muitas vezes é a cultura do imediatismo, do ataque, da defesa de grandes blocos conceituais como “a defesa da família”, “a caça à corrupção” que prendem a atenção dos indivíduos que estão do outro lado das redes sociais. Como consequência, o debate político perde em qualidade e profundidade, os extremismos e a intolerância acentuam-se. Alguma tentativa de controle da divulgação dessas informações pode esbarrar na imunidade parlamentar, assegurada no art. 53 da constituição federal, já que as opiniões, palavras e os votos dos parlamentares são invioláveis civil e penalmente.

A cada dia que passa podemos perceber a importância das novas mídias sociais no mundo político. A real extensão dessa influência ainda é desconhecida,porém, inegável. As eleição no Senado é um belo exemplo que nos mostra todo o potencial das redes sociais para se tornarem um novo agente da política brasileira. 

Seja o primeiro a curtir!

Comentários

avatar

As pessoas também curtiram

Histórias relacionadas
1.Brincadeiras para desenvolver a coordenação motora das crianças
2.Aurora Polar, Boreal ou Austral? Entenda de vez esse fenômeno.
3.A turma do 'mito'
4.Escolas brasileiras estão em alerta: 
5.Os 5 melhores smartphones até R$ 1000
6.Curiosidades sobre o filme Rei leão: 
7.Cigarro eletrônico: Fumar ou não? 
8.As 4 moedas mais valorizadas do mundo: 
9.Melhores filmes para ver hoje na Netflix
10.Qual é a melhor cerveja?
500x500
500x500