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WTF da semana: é 2017 e tem gente empenhada em dizer que nazismo é de esquerda

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WTF da semana: é 2017 e tem gente empenhada em dizer que nazismo é de esquerda

Marcha de neonazistas e bloqueada por manifestantes antifascistas (Foto: Reprodução/ Twitter)

Porque o poço não tem fundo nessa palha-assada que é a vida, na semana passada tivemos uma sequência de eventos lamentáveis, todos detonados por uma marcha de supremacistas brancos e neonazistas na cidade de Charlottesville, no estado da Virginia, EUA, no sábado, dia 12.

Se você quiser saber mais sobre o que rolou, recomendo fortemente o minidoc produzido pela publicação Vice dos Estados Unidos, já disponível com legendas em português no site da Vice Brasil.

Além da morte terrível de uma jovem que protestava contra os neonazistas, tivemos cenas lamentáveis ™ protagonizadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vive uma crise política detonada pela reação a Charlottesville.

No Brasil a repercussão foi grande, mas o mais bizarro - e olha que foi uma disputa acirrada viu - foi muita gente, mas muita, tentando se convencer e convencer os outros de que o nazismo, enquanto movimento e ideologia, seria "de esquerda". 

Isso mesmo - um movimento caracterizado principalmente pelo seu cerne nacionalista e de supremacia racial cairia no espectro da esquerda política.

WTF da semana: é 2017 e tem gente empenhada em dizer que nazismo é de esquerda

Em um ambiente cagado de polarização política como o que vivemos atualmente, as pessoas estão tão empenhadas em empurrar pro outro lado, "o inimigo", as coisas que não gostam que se esforçam em propagar chorume na internet sem abrir um livrinho ou sei lá, dar um Google mesmo em fontes confiáveis sabe.

Não é difícil.

Por exemplo, uma rápida pesquisa te levaria a esse artigo da BBC Brasil DE MAIO, que explica direitinho por que sair falando em caps lock NAZISMO É DE ESQUERDA E ME DEIXA PENSAR ASSIM é apenas uma grande bobagem.

"Me parece que isso é uma grande ignorância da História e de como as coisas aconteceram", disse à BBC Brasil Izidoro Blikstein, professor de Linguística e Semiótica da USP e especialista em análise do discurso nazista e totalitário.

"O que é fundamental aí é o termo 'nacional', não o termo 'socialista'. Essa é a linha de força fundamental do nazismo - a defesa daquilo que é nacional e 'próprio dos alemães'. Aí entra a chamada teoria do arianismo", explica.

Se você quer entrar nas minúcias da discussão ideológica da questão, o artigo ainda se aprofunda com a contribuição da Adriana Dias, da Unicamp:

"Os comícios hitleristas eram profundamente antimarxistas. O nazismo e o fascismo diziam que não existia a luta de classes - como defendia o socialismo - e, sim, uma luta a favor dos limites linguísticos e raciais. As escolas nacional-socialistas que se espalharam pela Alemanha ensinavam aos jovens que os judeus eram os criadores do marxismo e que, além de antimarxistas, deveriam ser antissemitas."

Não tá satisfeito né? Eu sabia.

Diante da pororoca de esgoto que se converteram as redes sociais durante a semana, o Guga Chacra, do Estadão, publicou um artigo escrito pelo Michel Gherman, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém e coordenador do Centro de Estudos Judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Nele, Gherman explica:

A intenção (de Adolf Hitler) era criar um partido de massas, radicalmente antissemita e anticomunista. Hitler e os nazistas eram nacionalistas extremistas. Acreditavam na construção de um Estado alemão baseado na raça ariana. Assim, quaisquer perspectivas de classes ou internacionalistas eram consideradas posições inimigas e deviam ser derrotadas. Dessa forma, Hitler percebe o socialismo, o marxismo e o judaísmo como inimigos. Os dois primeiros por falar em luta de classe e internacionalismo, o segundo por ser, segundo ele, cosmopolita.

Gherman faz ainda questão de esclarecer que, como extrema-direita, o movimento nazista não representa o polo do espectro politico que entendemos como direita numa democracia:

Mas não se enganem, nada mais distante, também, de qualquer posição de direita liberal. O nazismo era um movimento de extrema–direita, o que em sua natureza é distinto da direita liberal e democrática.

Desenhado, né mores?

No mais, se esse povo gastasse seu tempo nas ~redes menos em malabarismo retórico e mais em condenar racismo e demonstrações de ódio, o mundo estaria, ó, bem melhor.

Me respeitem, respeitem nossa inteligência.