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Você precisa assistir às entrevistas do David Letterman na Netflix

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Malala Yousafzai contando umas verdades pro David Letterman - Divulgação Netflix
Malala Yousafzai contando umas verdades pro David Letterman - Divulgação Netflix

Eu não estou sendo paga pela Netflix para escrever este post. Na verdade, eu estou pagando, mais precisamente R$ 27,90 por mês. Mas pra todo mundo que reclama que está pagando a mensalidade à toa, eu digo: procure além dos filmes e das séries. A plataforma de streaming tem muita coisa boa de não-ficção, como documentários e stand-ups. Agora, tem um programa de entrevistas de primeira.

"Meu próximo convidado dispensa apresentação", com o lendário ex-apresentador do Late Show David Letterman, teve cinco episódios até agora, e todos foram ótimos. Sem aquela bobagem dos talkshows de contar histórias engraçadas super espontâneas (só que não) que duram três minutos, Letterman consegue ter de fato uma conversa real e profunda com algumas das grandes personalidades do mundo.

O episódio de estreia teve a primeira entrevista do ex-presidente dos EUA, Barack Obama, depois de deixar a Casa Branca. À vontade diante das câmeras, como sempre, Obama dá um show de autodepreciação - o que é extremamente engraçado vindo de uma das pessoas mais admiradas do mundo - e de serenidade diante de um cenário político quase apocalíptico.

Uma parte interessante do programa, que é a cara da Netflix, é Letterman usando algum ponto citado pelo entrevistado para gravar uma externa sobre um assunto relacionado. Nesta "premiere", ele faz a famosa travessia pelos Direitos Civis em Selma e tenta entender por que ele era tão alienado naquela época.

O segundo episódio tem George Clooney contando a histórica filantrópica de seus pais para explicar por que ele sempre foi uma pessoa engajada e acabou se casando com uma das ativistas mais importantes do mundo. Faz você acreditar que há boas pessoas em Hollywood.

Depois vem Malala e a busca de Letterman para entender como este fenômeno de garota fez tudo o que fez. Segura e sem a menor necessidade de agradar, a paquistanesa dá uma aula ao apresentador, e a todos os ocidentais, sobre o que significa contestar o status quo sem dar as costas a sua história e sua religião.

Em seguida, talvez a pessoa menos unânime desta temporada: o rapper Jay-Z. O marido de Beyoncé fala abertamente sobre o período em que vendia crack em Nova York, sobre como a sorte definiu o seu destino, sobre o que significa ser negro, pobre e depois rico, nos EUA e sobre a dificuldade que os homens enfrentam para expressarem suas emoções.

O quinto episódio recebeu a comediante-atriz-escritora-produtora-pessoa-muito-poderosa Tina Fey, o que poderia ter virado uma sequência de piadas internas entre os dois. Mas a experiência dela como mulher que decidiu ser a chefe na frente e atrás das câmeras é diferente, é inspiradora, e tudo isso é envelopado em seu humor inteligente e sensível.

O sexto e último da primeira temporada será com Howard Stern, radialista e músico que nunca me empolgou muito. Talvez seja o mais sem graça entre os escolhidos para esta série, mas pode surpreender.

O bom do estilo de entrevista de Letterman neste formato é sua própria vulnerabilidade (especialmente após ter seu caso de traição exposto publicamente), o respeito que os entrevistados têm por ele e sua genuína curiosidade pela experiência do outro, o segredo de qualquer boa entrevista.