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E se fosse no Brasil?

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No dia 23 de junho, 12 meninos jogadores de um time de futebol amador, no interior do Brasil, acompanhados de seu técnico, fazem um passeio após o treino, para explorar uma grande caverna, que fica em um importante parque ecológico da região. São surpreendidos por uma forte chuva, que alagou o interior da caverna, e ficam presos lá dentro.

Grupos políticos na internet fazem guerra de desinformação e acusações levianas para todos os lados. O grupo de direita e seus bestiais seguidores bradam nas mais diversas redes sociais, contra o Prefeito Local, de partido de esquerda, sua política tacanha, sua falta de visão, que não proveu o local de infraestrutura adequada para o desenvolvimento do turismo local, que poderia gerar emprego e renda na região. O pessoal da esquerda, acusa o governador do estado, responsabilizando-o pela insegurança do local; posta foto do governador viajando no exterior enquanto seus conterrâneos padecem no interior da caverna; mas não fica só na internet não, também vão com suas bandeiras protestar em frente ao palácio do governo, e aproveitam para ampliar a pauta de reivindicações.

Mergulhadores especializados e outros técnicos altamente qualificados vêm dos mais diversos lugares do mundo, para ajudar no resgate dos meninos brasileiros. Seus equipamentos, contudo, demoram para receber a liberação na aduana, devido à operação padrão da Receita Federal no maior aeroporto do país. Após terem seus equipamentos finalmente liberados, os voluntários tiveram sorte, por não ser período de neblina, e o voo doméstico pode decolar rumo ao interior de país.

Os pais e parentes dos meninos publicam textão na internet, acusam o treinador, o vigia do parque ecológico que não os proibiu de adentrar à caverna e principalmente as autoridades pelo descaso com seus filhos. Aparecem em todos os canais de TV, nos jornais, nas revistas semanais, nos canais da internet, exigindo providências imediatas, exigindo contato com seus filhos, informações em tempo real sobre o que se passa com seus filhos no interior da caverna.

Reportagens são feitas nas emissoras de TV, rádios e jornais de todo o país discutindo as responsabilidades. Quem foi o culpado? Quem foram as autoridades culpadas pelo mal destino destes meninos. Uma revista semanal publica uma extensa e esclarecedora reportagem sobre a corrupção e desvios na administração de parques ecológicos em todo país.

O diretor do clube de futebol onde as crianças treinam é preso, preventivamente, acusado de negligência por permitir esse passeio absurdo. O ministério público oferece denúncia contra as autoridades locais que não providenciaram o isolamento da entrada da caverna, nem a informação adequada – a placa indicativa dizia que as chuvas começavam em julho, e elas começaram uma semana antes! A prefeitura estuda uma ação regressiva contra a empresa de meteorologia que fez o estudo de precipitação pluvial.

O responsável pela operação de resgate dá no mínimo três entrevistas coletivas por dia. Comentaristas de TV discutem sua experiência, seu posicionamento político, duvidam de sua capacidade para liderar tão grandiosa operação. Domingo à noite, ele concede uma entrevista coletiva, que bate recordes no Ibope. Já no terceiro dia das operações teve que pegar um jatinho da FAB para ir à Capital Federal prestar informações ao executivo e ao congresso nacional. O congresso, inclusive, já trabalha na instauração de uma CPI mista para apurar o caso.

A equipe da operação de resgate atua em três frentes: Criar uma estratégia para retirar os meninos mergulhando, pelo mesmo caminho em que entraram; manter as crianças lá dentro, até passar o período de chuvas; ou retirá-los por um túnel vertical. Para esta última opção, técnicos começam a perfurar a rocha em diferentes pontos, orientados por geólogos e geofísicos. Entretanto, as operações são interrompidas por determinação do órgão ambiental, pois não houve estudo do impacto ambiental. Grupos de preservação ambiental publicam um manifesto repudiando o desmatamento da floresta na tentativa de cavar o túnel; ressaltam também o impacto do barulho da perfuração e de toda a movimentação em torno do resgate, sobre as espécies da fauna local.

Ainda nas demandas ambientais, foi emitida uma liminar em mandado de segurança para parar a drenagem da caverna, pois as águas retiradas estão sendo direcionadas para uma grande área de baixada onde vivem pequenos roedores locais, que ficarão sem abrigo e correm risco de extinção. Aa autoridades conseguem então, firmar um TAC – um termo de ajustamento de conduta, em que se comprometem a direcionar as águas para um rio a certa distância, e a drenagem poderá ser retomada assim que o aqueduto ficar pronto, em algumas semanas.

A associação de pediatria também divulgou seu manifesto afirmando que as crianças não podem permanecer mais tempo na caverna, elencando as doenças a que estão suscetíveis. Também o fez a associação de psicologia, dos profissionais de nutrição e tantas outras. Diante de tantos riscos, a promotoria da infância e da juventude diz que as autoridades responderão pelos danos que estas crianças possam sofrer devido à morosidade do resgate.

Conselheiros tutelares apontam a possível negligência dos pais que permitiram esta aventura, e as possíveis sanções previstas no Estatuto da Criança e Adolescente.

Houve um pai, de um dos meninos, que processou a mãe, por ter permitido o passeio, e pede a guarda da criança na justiça. Outra família, entrou com processo, exigindo que seu filho seja o primeiro a ser resgatado, diante do seu histórico de hiperatividade.

Em outra ação, a associação dos pais dos meninos, recém-criada, processa o clube de futebol e as autoridades, reivindicando vultuosa indenização por danos morais, além de indenização por lucros cessantes, pelo período que deixaram de trabalhar para acompanhar o resgate de seus filhos; requer indenização também, pelo uso indevido e não autorizado da imagem das crianças no interior da caverna. Conforme divulgou o advogado que os representa, o grupo também exige que sejam informados de todos os passos, e que possam compartilhar democraticamente das decisões tomadas pela equipe de resgate.

Uma emissora de TV consegue comprar imagens exclusivas do interior da caverna, gravadas por um mergulhador. Em outro canal, o próprio repórter-mergulhador consegue se infiltrar entre os socorristas, para fazer sua brilhante matéria em loco, e pode relatar aos telespectadores, emocionado, as sensações de estar no interior da mesma.

Os colegas de escola, professores e comunidade local, fecham a principal via de acesso à cidade para protestar contra a falta de informação e ausência de previsão da data de resgate dos meninos. Pedagogos indicam que a morosidade no resgate vai atrasar a retomada à rotina escolar dos garotos, e pode prejudicar o desempenho escolar dos mesmos.

Médicos e funcionários do hospital mais próximo, para onde os meninos devem ser enviados tão logo saiam da caverna, aproveitam para divulgar na imprensa, as péssimas condições do local, a falta de equipamentos, e protestam por melhores condições de trabalho.

Os sindicatos preocuparam-se com os servidores públicos envolvidos nas operações. Diante da pressão psicológica, do ambiente periculoso e insalubre e da alta carga horária a que estavam sendo submetidos, impôs-se a necessidade de implantação de um adicional por serviços extraordinários. Projetos de lei para regulamentá-lo estão tramitando com celeridade na câmara de vereadores e na assembleia legislativa do estado.

Nos primeiros dias apareceram voluntários de grupos religiosos e moradores locais, que na ânsia de ajudar, começaram a preparar comida para as equipes de resgate, conseguiram doações no comércio da região, tudo de graça, fresquinho, feito na hora com carinho e dedicação. Mas logo a vigilância sanitária vetou a prática que colocava em risco a saúde das equipes de resgate. Então a prefeitura fez às pressas um contrato emergencial com a mesma empresa que fornece quentinhas ao presídio regional, para entregar comida segura, três vezes ao dia. Na mesma época também chegaram alguns ambulantes, vendedores de churrasquinho, guloseimas, e água mineral, item que mais inflacionou diante de tamanha demanda.

Na edição da semana seguinte, a revista semanal que parte dos comerciantes locais, embora muito abalados com a situação, aproveitaram para aumentar os preços de estadia, alimentação, capas de chuvas e galochas. A reportagem também afirma que quase todo o pessoal envolvido nas operações, tinha o suporte financeiros de diárias para suportar tais despesas.

E nossas crianças presas lá dentro? Estariam aguardando o resgate com paciência e esperança? Confiariam no seu treinador e manteriam a tranquilidade naqueles primeiros dias isolados, com tantas incertezas?

E se fosse no Brasil? Qual seria o desfecho desta história?