CINEMA

Gosto se Discute: Roteiro cru

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Gosto se Discute: Roteiro cru

Na cozinha, todo processo de preparação antes de efetivamente cozinhar se chama mise en place (se fala misã-pláce), como se fosse a pré-produção de um filme. Se continuarmos no paralelo entre cinema e gastronomia, podemos dizer que os realizadores de Gosto se Discute acenderem o fogão antes de ter todos os insumos preparados.

Essa falta de cuidado e dedicação com o roteiro é uma falha comum a muitas comédias da nossa filmografia contemporânea. Nos títulos capitaneados por humoristas famosos da televisão se dá por uma extrema dependência da improvisação. O elenco do novo filme não traz uma figura do porte de Leandro Hassum ou Rodrigo Sant'Anna. Nesse caso, foi um bom tanto de pesquisa sobre o tema do filme e pouca energia na dramaturgia em si.

A história projetada na tela acompanha Augusto (Cássio Gabus Mendes, de Tempo de Amar), um chef de cozinha dono de um restaurante em crise. O banco que investiu no negócio manda a consultora Cris (Kéfera Buchmann, de O Amor de Catarina) para salvar as finanças e a relação entre os dois personagens é amarga. Para completar, enquanto Augusto tenta inventar um cardápio mais moderno para o estabelecimento, ele perde totalmente o paladar.

A situação dramática é interessante, mas o desenvolvimento perde o ponto. O protagonista muda de rumo ao sabor dos ventos, em uma demonstração de um roteiro que quer tomar muitos caminhos, mas com destino indefinido.

O mais triste de tudo isso é que Gosto se Discute traz uma boa pesquisa sobre gastronomia. O clima da cozinha está lá e alguns assuntos resvalados pelo roteiro são bem pertinentes. O filme contém lampejos sobre a corrupção enraizada na regulamentação de um restaurante, sobre tendências da gastronomia, e outros temas que poderiam deixar o longa bem mais instigante. Se o cuidado da pesquisa fosse copiado nas áreas técnicas, como roteiro e direção, teríamos um filme muito mais apetitoso.