ENTRETENIMENTO

Ai, que saudade vamos sentir de "Novo Mundo"

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Estamos acostumados a ver novelas que vêm e vão, faz parte do ciclo da vida e da grade de programação da Globo. Mas algumas vezes a gente se encanta muito por alguma novela e a dorzinha parece um pouco maior.

Ai, que saudade vamos sentir de "Novo Mundo"

(Reprodução/Globo)

"Novo Mundo" estreou na Globo com uma proposta bem diferente - o que aconteceria se tivesse uma novela contando a história de Dom Pedro I e do Brasil ficando independente? A ideia não chega a ser a coisa mais inédita do mundo, até porque algumas décadas atrás a minissérie "O Quinto dos Infernos" sobre o mesmo tema fez bastante sucesso (e instituiu Marcos Palmeira como o Imperador Parrudo no imaginário do país), mas uma novela é bem diferente de uma produção mais curta e exibida num horário que se permite maiores experimentações. Mesmo com todos esses contras, a dupla Thereza Falcão e Alessandro Marson apostaram tudo na trama do nascimento do Brasil como nação independente e não se arrependeram.

Em vez de focar nas figuras históricas, como aconteceu na minissérie, os autores colocaram como protagonistas pessoas fictícias que poderiam ter existido na época, mas que não tinham importância o bastante para ganharem registros nos livros de história. Assim nasceram a professora Anna Milman (Isabelle Drummond) e o jovem ator Joaquim (Chay Suede), a dupla de portugueses que se aventuraram no Brasil ao lado da imperatriz Leopoldina (Letícia Colin) que estava vindo ao país conhecer seu crush arranjado Dom Pedro (Caio Castro).

Ai, que saudade vamos sentir de "Novo Mundo"

(Reprodução/Globo)

A novela das seis nos cativou pela simplicidade, pelo humor e, acima de tudo, pelo carisma dos personagens. Ok, o Joaquim era um pouco forçado e foi praticamente o MacGuyver do Brasil Império, sempre envolvido em todas as tretas possíveis e resolvendo tudo na base da luta e de sua sagacidade (até na Independência do Brasil ele teve um papel importante que não havia sido comentado nos livros de história), mas isso não muda que o personagem em si era forte e sabia comandar a trama.

Muitos atores estiveram ótimos durante "Novo Mundo", com destaque para Ingrid Guimarães e sua tresloucada Elvira Matamouros, Letícia Colin como a imperatriz Leopoldina, Caio Castro mostrando que não é apenas mais um rostinho bonito num Dom Pedro muito seguro, Gabriel Braga Nunes com seu vilão psicopata Thomas e muitos outros. 

Ai, que saudade vamos sentir de "Novo Mundo"

(Reprodução/Globo)

Na minha opinião, o maior mérito de "Novo Mundo" foi a forma como os autores transformaram em novela acessível um fato histórico do nosso país. A dramaturgia mundial está acostumada a criar romances folhetinescos em todos os períodos da História Mundial, da Revolução Francesa à época da descoberta da roda, mas no Brasil não temos mais o hábito de inserir dramaturgia em novelas populares desde o fim das tradicionais minisséries históricas que a Globo costumava apresentar em janeiro. Exemplos como "A Casa das Sete Mulheres" ou "JK" já mostravam como as páginas dos livros de História eram uma fonte inesgotável de personagens incríveis, perfeitos para uma teledramaturgia de qualidade.

Muito mais que uma simples história de amor ou apenas uma releitura do nascimento do Brasil, "Novo Mundo" conseguiu expor como funcionava as várias castas da sociedade de uma forma que os livros de História costumam deixar de lado. Discutiu racismo, escravidão e até inseriu discussões recentes sobre "conservadores x liberais" de uma forma não-forçada (que é o que ocorre em muitas novelas de época que se arriscam a debater temas atuais), além de situar um episódio conhecido como a Independência do Brasil através do ponto de vista dos observadores.

Que "Novo Mundo" e sua recepção positiva por parte do público seja usada para mostrar que estamos sim interessados em histórias sobre o passado do nosso país, mesmo que através de personagens que não estejam nos livros.