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Cobertura da prisão de Lula pela TV é um festival de obviedades e falta do que falar

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Os últimos dias têm sido corridos para a redação de jornalismo de todas as emissoras que levam esse setor a sério, afinal rolou tanto a votação do TRF-4 quanto o anúncio de que Sérgio Moro havia expedido um mandado de prisão para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não sou especialista em Política (aqui no Storia há pessoas muito mais capazes para comentar sobre o assunto, como o Márcio Juliboni), mas consigo mostrar que a cobertura televisiva do fato está bem exagerada.

Cobertura da prisão de Lula pela TV é um festival de obviedades e falta do que falar

Lidar com notícias frescas que estão saindo a todo momento é um pesadelo para qualquer programa jornalístico, afinal eles não podem contar com edição de imagem e nem gráficos bonitinhos que facilitem o entendimento. Assim, os programas jornalísticos basicamente têm sido com os apresentadores nas bancadas falando tudo pau-sa-da-men-te para fazer a pouca informação render. E depois ainda repetem.

A falta do que falar causou um episódio curioso. O "Roda Viva", por exemplo, inventou que seu programa da semana (previsto para o mesmo dia dos votos do TRF-4) iria debater o resultado da votação. Eles só se esqueceram que os juízes têm o hábito de... bem... enrolar um pouco na justificativa, e acabou que a votação foi terminar quatro horas APÓS o "Roda Viva". Ou seja, os jornalistas e especialistas políticos ficaram debatendo sobre o nada, afinal o caso ainda não tinha um resultado.

A decisão de Sérgio Moro de expedir o mandado de prisão também gerou um show midiático como há muito tempo não víamos. Renata Vasconcellos surgiu com os cabelos ligeiramente despenteados num Plantão da Globo para anunciar a notícia. "Mais informações a seguir no Jornal Nacional", disse a apresentadora, dando um gancho para o principal programa jornalístico da Globo. Não foi bem o que aconteceu, porque o JN ficou apenas rodando o próprio rabo falando nada que o plantão de um minuto não tenha dito.

Cobertura da prisão de Lula pela TV é um festival de obviedades e falta do que falar

Mas é na TV paga que a cobertura virou um festival de baboseiras. A Globo News chegou até a mudar seu logotipo (colocando um "urgente") pra grande festa que se tornou a prisão de Lula. O canal de notícias chegou a disponibilizar um helicóptero para acompanhar integralmente o caminho de Lula do bairro do Ipiranga em São Paulo (onde fica o Instituto Lula) até sua residência em São Bernardo. É um caminho de quase 50 minutos, mas lá estava o helicóptero cobrindo cada mudança de marcha no carro. Teve até um momento que noticiaram que o carro estava mudando de faixa!!! No estúdio, a apresentadora repetia as mesmas 4 frases em loop, até que o carro do Lula entrou em um túnel e eles viram que não dava mais pra acompanhar. Uma grande perda para o shownalismo.

Já para o dia da prisão em si, o canal colocou seus jornalistas espalhados ao redor da sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo para uma cobertura digna de um espetáculo tipo o "atrasados do Enem". Estão cobrindo até a venda de produtos com a bandeira do Brasil nos arredores! Usando como apoio um helicóptero (talvez o mesmo do dia anterior) ficaram mostrando pessoas do sindicato descarregando carvão para um churrasco que estão fazendo. Baita furo, heim!

Embora a notícia seja de fato importante, afinal trata-se da prisão de um ex-presidente, é fato que o jornalismo das emissoras está transformando isso em circo. A cobertura do trajeto do carro do Lula não acrescenta em NADA ao público, e só deixa o suposto "jornalismo sério" parecido com a cobertura de enchente que o Datena faz todo mês de janeiro. E não acho que os programas sensacionalistas da tarde sejam exemplos do que se fazer em um jornalístico sério.