HUMOR

Esse quadro da "Praça é Nossa" é um resumo perfeito da atual situação política

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Em meio a tanto humor feito por famosos de internet, apresentadores modernos de talk-shows e programas engajados politicamente, quem diria que o melhor retrato de como o brasileiro reage à política viria justamente do "A Praça é Nossa"?

Esse quadro da "Praça é Nossa" é um resumo perfeito da atual situação política

(Divulgação/SBT)

O que esperamos do bom e velho (e bota velho nisso) "A Praça é Nossa"? Aquele humor de bordão de várzea, aquele humor de bordão moleque, aqueles personagens que ficam repetindo frases que caem na boca do pessoal de casa. Como o "Zorra" abandonou o humor de frases repetidas para focar em cotidiano e política, restou a Carlos Alberto de Nóbrega a função de abastecer os brasileiros com novos personagens estereotipados.

Em seu último programa rolou a estreia de um novo quadro dentro do "A Praça é Nossa". Nele, Cazalbé é novamente interrompido de ler seu jornal por dois vizinhos com placas fazendo protestos. Rosária (Bibi Graça) é uma caricatura de hippie, uma vestidão estampado e cabelos não penteados, enquanto Jairo (Tuca Graça) parece uma releitura mais engomadinha do prefeito de São Paulo. Com suas placas dando lados opostos de uma mesma discussão, eles entram no palco se xingando de "coxinha" e "esquerdista". Eles representam os dois extremos políticos que parecem eternamente se digladiando nas redes sociais.

Como Cazalbé é a única instituição pacífica que existe neste país, ele tenta conciliar os dois lados (que pelas placas parecem estar protestando sobre o caso do Queermuseu), mas é impedido por mais e mais frases que mais parecem ter saído de comentários políticos que vemos no Facebook.

Fiquei curioso quanto ao quadro depois que li o release divulgado pelo SBT para apresentar os novos personagens da "A Praça é Nossa". Depois de uma breve explicação sobre os personagens e sobre como eles se tratam como as duas Coreias, o texto escrito pela assessoria de imprensa do SBT termina com a bonita frase "Os vizinhos discordam de tudo mas, no fim, só querem o melhor com pontos de vista diferentes.".

Na verdade isso foi só a interpretação de quem escreveu o release, porque os dois personagens agem realmente como se fossem comentaristas de internet, ou seja, nunca chegam num consenso ou menos no respeito ao coleguinha. Até o final da esquete, os dois continuam trocando ofensas e frases feitas, e sobra até para Carlos Alberto que é acusado de mamar nas tetas da lei Rouanet.

Em um momento que merecia indicação ao Nobel da Paz, Cazalbé levanta a voz para fazer um belo discurso sobre aceitação: "Gente, cada um tem a sua maneira de pensar. Todos vocês, da Direita, da Esquerda, cês têm coisas boas e coisas ruins.". Indignados com a voz desse senhor que é praticamente o Dalai Lama da televisão brasileira, os dois voltam à discussão e nada é acertado (ao contrário do que insinuava o release).

O quadro então termina com Carlos Alberto dizendo uma frase que representa o clássico humor de bordão, mas que é um retrato triste da realidade brasileira. Permita-me citar:

"Direita e Esquerda. E o povo? Há! Leva no centro." (NÓBREGA, Cazalbé de)