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Final de O Outro Lado do Paraíso foi um desserviço ao tratamento de doenças psiquiátricas

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A recém-terminada novela das nove "O Outro Lado do Paraíso" chamou a atenção nos últimos meses por tratar de forma péssima diversos temas sérios como violência contra mulheres e homofobia, mas no capítulo final a novela conseguiu mostrar um hospital psiquiátrico da pior forma possível.

Final de O Outro Lado do Paraíso foi um desserviço ao tratamento de doenças psiquiátricas

Após um tribunal que durou cerca de três capítulos, a vilã megera Sophia (Marieta Severo) finalmente teve seus crimes expostos quando Mariano (Juliano Cazarré) ressurgiu dos mortos e denunciou o assassinato frustrado. Só que em vez da juíza Raquel (Erika Januza) trancafiar a vilã da novela numa cadeia por anos a fio, o advogado de Clara (Bianca Bin) deu uma sugestão um pouco mais diplomática: analisar o psicológico de Sophia.

Através de uma junta médica composta pelo médico Samuel (Eriberto Leão), aquele que deveria estar com a licença cassada por ter emitido um laudo falso sobre a sanidade de Clara na primeira fase, a vilãzona da novela teve como destino um hospital psiquiátrico. E é aí que começa o tratamento errado.

Para começar, a palavra usada pelos personagens foi "MANICÔMIO", que não é utilizada pelos profissionais do meio por ser muito pejorativa. Até entendo que uma pessoa leiga ainda utilize essa palavra, mas o problema está em um médico psiquiatra e uma juíza na novela se referirem a essa instituição dessa forma equivocada.

Depois, vimos cenas de Sophia sendo tratada com requintes de crueldade no tal hospital, com a introdução de instrumentos de ferro em sua cabeça para que ela passasse por eletrochoques. Detalhe: esse tratamento também não é usado há algumas DÉCADAS por ser considerado primitivo. Atualmente, o eletrochoque é usado apenas em casos como depressão, mas se trata de uma dosagem bem baixa.

E a utilização está bem distante da tortura que vimos no capítulo final de "O Outro Lado do Paraíso"! Um hospital psiquiátrico não é uma realidade muito palpável por boa parte da população, então é um grande desserviço mostrar o serviço apenas como uma fonte de tortura. Quanta gente pode não ter na cabeça a imagem passada pela novela?

Final de O Outro Lado do Paraíso foi um desserviço ao tratamento de doenças psiquiátricas

Não é a primeira vez que Walcyr Carrasco, o autor da novela, mostrou uma versão irreal de hospitais psiquiátricos. Em 2013, a protagonista Paloma de "Amor à Vida" foi internada à força num hospital para tratamento mental e sofreu os mesmos eletrochoques dignos de uma temporada de "American Horror Story".

Quando se escreve uma novela, você precisa respeitar as regras. Não pode sair inventando tratamentos que existem apenas na cabeça do autor, até porque muita gente usa as novelas para se informar.