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Matéria do Fantástico causa debate sobre exposição de quem furtou celular

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O Fantástico havia prometido uma senhora investigação jornalística sobre o que acontece com um celular depois que ele é furtado em algumas capitais. O que ele exibiu? Uma matéria bem meia-boca com exposição desnecessária das pessoas que furtaram o aparelho.

Matéria do Fantástico causa debate sobre exposição de quem furtou celular

(Reprodução/Globo)

A matéria do Fantástico consistia na seguinte ideia: um repórter disfarçado de pedestre desatento andaria na região central de Porto Alegre e de São Paulo com um celular pendurado na mochila, de um jeito propício para ser furtado. O aparelho estava preparado com o aplicativo Cerberus, que permite que remotamente você possa rastrear o trajeto do aparelho, assim como ver fotos tiradas e até conferir a câmera frontal. Tudo à distância.

Mas a promessa de "siga o caminho que celular roubado percorre" acabou não sendo o foco da matéria. A equipe do Fantástico foi atrás das pessoas que furtaram o aparelho para colocá-las contra a parede. Detalhe: no caso de uma delas, a Globo foi até o trabalho da mulher, numa repartição pública.  O outro, também funcionário da prefeitura, mas de um outro setor, foi enquadrado pela Globo.

A matéria rendeu repercussão variada na internet. Tem gente que adorou ver "bandidos sendo expostos pela Rede Globo", mas uma parte do público se incomodou justamente por causa da exposição. Embora podemos acreditar que as pessoas mostradas na televisão possam estar envolvidas com furto e receptação de aparelhos celulares nas respectivas regiões centrais, não existem provas e nem ao menos flagrantes.

Matéria do Fantástico causa debate sobre exposição de quem furtou celular

(Reprodução/Globo)

"Ah, mas a matéria da Globo mostrou o flagrante!", alguém pode me perguntar, mas sinto informar que é um flagrante FALSO. Não no sentido de não ser verdadeiro, e sim no sentido de não ser válido. O motivo é que ele foi construído para acontecer, então não pode ser considerado um furto real. É o mesmo que se a emissora deixasse um carro com portas abertas e a chave no câmbio numa rua para filmar um flagrante, foi uma condição que ela criou, quase uma arapuca.

A Globo não é emissária da Justiça e nem tem direito de julgar pessoas, então mostrar pessoas que furtaram um celular numa situação criada chega a ser irresponsável. As próprias pessoas expostas de Porto Alegre e que foram perseguidas pela Globo acabaram afastadas de seus trabalhos, segundo a reportagem.

Matéria do Fantástico causa debate sobre exposição de quem furtou celular

(Reprodução/Globo)

O ideal a ser feito nesse caso seria exibir a reportagem com o famoso borrão na imagem das pessoas envolvidas, afinal elas não foram levadas à Justiça ainda. Curiosamente, a Globo embaçou o rosto de uma garota de São Paulo que comprou o aparelho furtado por 400 reais, sendo que receptação de aparelho TAMBÉM é considerado um crime.

Inclusive, outro detalhe curioso da reportagem: em momento algum a Globo culpou a falta de policiamento nas regiões mostradas, apenas a ação das pessoas que furtaram. Fica parecendo que a Polícia local tem culpa alguma dos incidentes ocorridos.

A situação é bem semelhante àquelas matérias exibidas pelo Fantástico em que eles retiravam uma peça da geladeira e levavam para vários técnicos para ver qual era o honesto. Nesse caso, entretanto, os desonestos ao menos tinham suas identidades omitidas pela tela embaçada.

Por fim, o que a Globo também esqueceu de contar é que ela mesma foi responsável por um "furto". No caso, de uma ideia. Essa história de deixar o celular ser roubado e aí seguir o "ladrão" via o app Cerberus? Isso, mesmo, não é original. 

Em 2016, um estudante holandês teve seu celular furtado e, com isso, toda aquela preocupação não só sobre o objeto de valor, mas principalmente em relação ao conteúdo que o ladrão teria acesso. A tensão virou arte e o estudante de cinema resolveu fazer um documentário sobre o tema. Ele se deixou ser roubado e, usando o app Cerberus, acompanhou o "percurso" do seu celular e deu de cara com o ladrão. Soa familiar? Confira o curta-metragem abaixo: