ENTRETENIMENTO

O "Bem Estar" é bom, mas não consigo assistir

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A grade de programação das emissoras é minuciosamente preparada para que o telespectador fique o máximo de tempo no canal, que tenha interesse em assistir ao próximo programa. Por que será então que eu não consigo manter a TV ligada assim que acaba a Ana Maria Braga e entra o "Bem Estar"?

O "Bem Estar" é bom, mas não consigo assistir

(Reprodução/Globo)

O "Bem Estar" é uma evolução dos quadros de saúde dos programas dedicados ao público feminino, só que ocupando um espaço que já foi foi dos representantes da juventude como a Fada Bela ou os Digimons. Basicamente é um programa que fala sobre problemas de saúde e alimentação saudável logo após de um programa de culinária que enfia queijo e carboidratos em qualquer receita.

Mas não acho o "Bem Estar" inassistível por estar posicionado no meio do programa da loira com um papagaio de espuma e o programa da ex do Bonner, meu problema com o "Bem Estar" vem por eu ser uma pessoa altamente influenciável. Já evito no dia a dia ler a parte de reações adversas nas bulas de remédios porque tenho certeza que começarei a sentir todos aqueles sintomas, então ver o "Bem Estar" é sempre uma dor diferente. Se eles passarem um programa hoje contando da doença XYZ que faz coçar a sola do pé, não tenho dúvidas de que começarei a sentir o comichão.

Também me incomoda as matérias sobre alimentação saudável, porque aparentemente todo dia a equipe de especialistas em saúde descobre algum novo alimento que faz mal ao ser humano e que precisa ser cortado de qualquer dieta sob o risco de danos irreversíveis à saúde.

Mas não pense que apenas bombas de sódio como refrigerantes e fast-foods entram na lista dos indesejáveis do "Bem Estar", às vezes algumas frutas ou temperos ganham um selo de proibido sem você nem entender o motivo. Outro dia mesmo praticamente rolou um tribunal para decidir se o suco de laranja fazia bem ou não para a saúde. Isso sem contar o caso do ovo, que passa a ser vilão ou mocinho a cada três meses, dependendo da mais nova pesquisa feita numa universidade internacional.

O "Bem Estar" é bom, mas não consigo assistir

(Reprodução/Globo)

E na boa intenção de tratar tudo de uma forma bem visual para o público leigo, algumas vezes acabamos vendo umas aberrações das quais gostaríamos de ser poupados às dez da manhã. Nunca vou me esquecer o belo dia em que o apresentador Fernando Rocha pegou dois especialistas e visitaram um ânus gigante para mostrar como é uma hemorroida. Isso mesmo que você leu: três homens dentro de um ânus gigante bem no horário que você pode estar tomando café da manhã:

O papo escatológico continuou em outro programa, quando Mariana Ferrão explicou ao público como se limpa a bunda com papel higiênico, afinal não é todo mundo que tem um bidê em casa. Para evitar usar algum produto parecido com cocô, ela usou pasta de dente para simular o material fecal. Confesso que foi difícil escovar os dentes aquele dia sem lembrar do programa.

Aliás, por favor, precisamos entender como é que Fernando Rocha foi parar nesse programa. Depois de passar grande parte de sua carreira no jornalismo esportivo, Fernandão foi arremessado sem dó no "Bem Estar" para cumprir o papel de leigo. Infelizmente ele deixou esse papel de lado e, desde o começo do programa, já demonstrou uma incrível habilidade de constranger os outros com suas piadas de tio do pavê.

Frescuras minhas à parte, reconheço o papel do "Bem Estar" na grade da Globo e aplaudo sua função social. Olhando para o Brasil, este país com saúde pública precária e uma desinformação cavalar, é incrível que exista na televisão um programa como o "Bem Estar", afinal ele passa a ser a chance das pessoas identificarem seus problemas e se informarem de um jeito mais didático que as propagandas do Ministério da Saúde...

...mas, cara... é um programa que o apresentador visitou um ânus gigante. Por favor, não!