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O núcleo gay de "O Outro Lado do Paraíso" precisa acabar

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Nessa imagem abaixo vemos os personagens do núcleo gay de "O Outro Lado do Paraíso" na confusão que fez a novela bater recorde de audiência essa semana. Acredite, esse núcleo é um grande equívoco.

O núcleo gay de "O Outro Lado do Paraíso" precisa acabar

(Reprodução/Globo)

Nessa foto que mais parece uma pintura Renascentista vemos Suzy (Ellen Roche), a esposa traída que flagra seu marido Samuel (Eriberto Leão) vestido de mulher com o amante, o motorista Cido (Rafael Zulu). Muita confusão, gritaria, diálogos ruins e 42 pontos de média de audiência (um fenômeno para o horário). A proposta do núcleo gay de "O Outro Lado do Paraíso" era mostrar homens de vida dupla. Samuel é um homossexual que não se aceita, então se força a casar com uma mulher para não decepcionar sua mãezinha e a si mesmo.

A ideia do núcleo em si não é ruim. Afinal, é um tipo de pessoa que existe aos montes na sociedade. Samuel ainda tem o peso de ser médico e ter uma posição de prestígio na sociedade, e sua homossexualidade poderia afetar tudo isso por causa da mentalidade mais conservadora da população. Mas não se engane com essa boa intenção: o autor Walcyr Carrasco desenhou toda essa trama de um jeito absurdo, grosseiro e muito ofensivo.

O núcleo gay de "O Outro Lado do Paraíso" precisa acabar

(Reprodução/Globo)

Isso porque além de querer mostrar um homem que esconde a própria sexualidade, o autor também achou que seria uma boa colocar ele como uma pessoa que tem fetiche em se vestir como o sexo oposto. Enquanto a autora Gloria Perez conseguiu mostrar personagens complexos em "A Força do Querer" sem usar estereótipos ou simplificações perigosas, Walcyr Carrasco em "O Outro Lado do Paraíso" parece um malabarista que tenta equilibrar mais bolas do que consegue. A forma simplificada como ele escreve a novela apenas reforça aquela crença pré-histórica de que os homossexuais têm desejos de ser o sexo oposto. Ou seja, toda a discussão que Gloria Perez levantou sobre a transexualidade na novela anterior foi pras cucuias.

A cena do flagra de Suzy fez nosso sensor de constrangimento explodir. A mocinha vingativa Clara (Bianca Bin) levou a enfermeira até o quarto onde Samuel estava vestido de mulher e dublando uma música antes de transar com Cido. Rolou então um monte de gritaria, personagem sendo jogado no chão e momentos que fez parecer que o "Zorra Total" ainda existia na grade da Globo.

O núcleo gay de "O Outro Lado do Paraíso" precisa acabar

(Reprodução/Globo)

Alguns assuntos são delicados e precisam ser mostrados com muito cuidado na televisão, ou pode correr o risco de desinformar mais que informar. O autor de "O Outro Lado do Paraíso" tem cometido muitos pecados com sua novela, e a forma como ele tratou o núcleo gay da trama pode acabar reforçando todos os estereótipos equivocados da população. Um verdadeiro desserviço.

Não que seja uma surpresa esse tratamento errado a temas sérios. Em "Amor à Vida", a novela das nove anterior de Walcyr Carrasco, o autor teve uma abordagem desastrosa ao falar sobre soropositivos porque colocou a personagem infectada sendo tratada como uma xícara suja pelo namorado. Não estou exagerando, ele a comparou com uma xícara suja, com essas palavras. Detalhe: o tal rapaz era médico. Um show de despreparo para se abordar certos temas.