ENTRETENIMENTO

O "Pânico" deu a maior prova de que precisa acabar

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Ao contrário do que parece, nessa matéria não vou falar que o "Pânico na Band" está datado, que seus humoristas parecem uns quarentões com mentalidade de adolescente e nem que ficam repetindo as mesmas piadas que os tornaram irreverentes em 2003. Na verdade, o argumento para o final do programa é que eles falharam em cumprir o que um verdadeiro grupo de humoristas deveria fazer.

O "Pânico" deu a maior prova de que precisa acabar

(Reprodução/Band)

Semana passada rolou a notícia de que a Band ia encerrar o "Pânico" porque a audiência e os custos já não compensavam a receita. Todo mundo falou sobre isso e teve até uma piada bem engraçada nas redes sociais dizendo que a emissora iria criar um "MasterChef Comediantes" para ocupar o lugar. Com isso, todo mundo estava ansioso para ver o que os humoristas iriam falar no programa ao vivo sobre o tal final do "Pânico na Band". E a resposta foi: nada.

Nadinha.

Necas de pitibiriba.

Segundo o jornalista Maurício Stycer do Uol, o programa do último domingo foi apenas mais uma edição normal do "Pânico" com os quadros sem-graça de sempre e a ~inovadora~ perseguição a artistas que em algum momento se recusaram a falar com os humoristas (depois de nomes como Carolina Dieckmann, Jô Soares e Clodovil, agora eles estão perseguindo a Pabllo Vittar). Nenhuma vírgula foi dita sobre o cancelamento do programa, nenhuma indireta, nenhuma piada a respeito da notícia da semana. E isso é o maior sinal de como eles perderam a própria identidade com o passar dos anos.

O "Pânico" surgiu em 2003 fazendo piada com o universo televisivo e dos famosos de uma maneira ainda inédita. Faziam perguntas de duplo sentido para celebridades e zombavam da própria verba que a RedeTV disponibilizava para o grupo realizar um programa dominical. A personagem Mulher Samambaia, uma gostosa com roupa de samambaia, foi criada para ironizar programas que colocavam mulheres seminuas no palco para atrair audiência. O que vemos hoje é que o programa se tornou exatamente o que eles criticavam.

Vou contar uma história sobre um outro programa televisivo que teve seu fim anunciado pela mesma Band. O "Agora É Tarde" era o talk show de Danilo Gentili, até que o humorista pegou toda a sua equipe e se mudou para o SBT. Com o formato e o abacaxi na mão, a Band chamou Rafinha Bastos para continuar o legado. Depois de um ano de exibição, e insatisfeita com os custos, a Band decidiu anunciar o cancelamento do "Agora é Tarde" para dali alguns meses.

Diante da iminência da demissão, o que Rafinha Bastos fez no primeiro programa exibido após o anúncio do cancelamento? Fez piada com isso! O monólogo de abertura do "Agora é Tarde" foi feito pelo pai de Rafinha Bastos narrando todos os fracassos do filho:

Isso é o mínimo que podíamos esperar do "Pânico na Band", piadas e indiretas com a própria emissora que sentenciou o final do programa com meses de antecedência. Mas não, por algum motivo o programa achou melhor seguir com o baile como se nada tivesse acontecido.

Antigamente o bobo da corte era a única pessoa do reino que tinha coragem de dizer ao rei tudo o que estava errado em seu governo. A função do humor nunca foi humilhar minorias, e sim fazer piada com quem está acima. O "Pânico", por outro lado, acabou apenas aceitando seu papel de humor ultrapassado que persegue artistas que decidiram não dar entrevista em algum momento. Igualzinho o que já faziam em 2003.