CINEMA

O triunfo da vontade

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Em O Triunfo da Vontade, obra-prima da cineasta alemã Leni Riefenstahl, somos apresentados ao VI Congresso do Partido Nacional Socialista que aconteceu na cidade de Nuremberg na Alemanha em 1934. O documentário estreou no ano de 1935 e foi encomendado pelo ministério da propaganda nazista, contando com mais de 30.000 participantes.

A trama se inicia com a chegada do führer a cidade, tal qual um verdadeiro deus, saindo das nuvens, ao som de uma música de cunho celestial. Nesse momento, temos a perspectiva do próprio Hitler, técnica interessante que Riefenstahl emprega, onde vemos o que o próprio avista. Ao chegar à cidade, ele é recebido de forma grandiosa e aclamado pela população. Leni faz questão de destacar os rostos sorridentes, a emoção, a histeria e a aprovação do povo ao seu líder.

Hitler é o ator principal, a figura que vem pra salvar a Alemanha, a voz do povo. A câmera sempre tenta mostra-lo acima da grande massa, ou pairando a luz, ressaltando a sua pessoa como um deus. O documentário trabalha muito bem com símbolos, a suástica está sempre presente na grande maioria das cenas, demonstrando a grandiosidade do partido.

O triunfo da vontade

Observamos os soldados da juventude hitlerista se banhando, brincando e se divertindo num acampamento. Não há tristeza, não há recessão econômica, não há fome, nem sinal de guerra entre eles. A juventude ganha foco, ela é o futuro. É mostrando toda essa felicidade que Hitler discursa e chama os jovens para construir uma Alemanha melhor, sem divisão de classes e com oportunidades para todos.

Vários membros das forças militares e do partido discursam e incentivam a população a agir e a apoiar Hitler e o regime que começa a se erguer. Com a liderança dele, a Alemanha vai firmar o objetivo de ser um lar para todos os alemães. Hitler vai garantir a paz, a vitória e o avanço do país. Como disse Rudolf Hess, um dos deputados, em seu discurso ao líder: “Tu és a Alemanha. Tu ages, o povo age. Tu julgas, o povo julga”. Em uma dessas falas, sutilmente, os primeiros sinais do racismo são notados, quando um dos generais declama que a nação que não valorizar a pureza de raça perecerá.

Os trabalhadores são convidados a colaborar e são vistos como a força que vai fazer a Alemanha voltar a crescer, trazendo uma nova era pra nação. Em uníssono, eles carregam pás e em formação militar, anunciam a localidade de onde vem. Nessa cena, esses homens representam a ideia de unidade, de uma só nação, unida pelo futuro. Uma nação, um líder, um reich. Em um discurso exaltado, um dos soldados, com brilho nos olhos, incita a população a vir pra guerra, pois quem não participar dela, não poderá realmente ser considerado cidadão alemão.

O congresso é um verdadeiro espetáculo, coreografado e organizado, reunindo elementos tradicionais da cultura alemã. Ele se apresenta como um evento do povo para o povo, um reflexo dos seus desejos. De acordo com Lenharo, o verdadeiro congresso do partido realizou-se somente no cinema: o filme criou o congresso. Pereira discorre que dessa forma: (...) A propaganda revelou-se aplicada com tanta perfeição à realidade que, segundo Erwin Leiser, torna-se difícil distinguir onde termina a realidade e começa a encenação. Não é mais possível perceber se a câmera filmou uma parada militar real ou se tudo foi apenas encenado para ela.

É um documentário produzido com a ideia de influenciar a sociedade a crer no poder do partido e na figura do führer como o salvador, mas ele é inteligente ao mostrar isso de forma mascarada e assim conseguir convencer e entusiasmar quem o assiste. É visível a noção de esperança que ele transmitiu para a época, pois ele é sobre uma nação que tem a força pra se reerguer e sair da recessão econômica que vem sofrendo desde o fim da primeira guerra mundial. Numa Alemanha devastada, que cidadão não se entusiasmaria ao ouvir tudo isso?

Segundo Santos, os nazistas foram um dos primeiros a usar o cinema como instrumento de propaganda ideológica. Goebbels, ministro da propaganda nazista, acreditava que os filmes de entretenimento tinham uma intenção política, pois os mesmos afastavam todos das preocupações domésticas e familiares, por isso ordenou que todos os filmes que fossem produzidos não se concentrassem em informações e sim nas emoções, retratando Hitler como um homem que se sacrificou por uma nação.

O carisma, a oratória excelente de Hitler e a sagacidade de Goebbels foram as principais chaves para conquistar o apoio popular e fundar o reich. No seu livro, Mein Kampf, Hitler já dizia que a arte da propaganda reside justamente na compreensão da mentalidade e dos sentimentos da grande massa. Ela encontra, por forma psicologicamente certa, o caminho para a atenção e para o coração do povo. E é exatamente isso que vemos ao decorrer do tempo no documentário, os anseios de uma sociedade que clama por um país melhor e encontra na figura do seu líder, a solução para todos esses problemas.