MULHERES

A arma afiada que uma cantada de rua pode conter

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A arma afiada que uma cantada de rua pode conter

(Reprodução / Meu corpo não é público)

Depois do movimento coletivo de mulheres desabafarem e se unirem por meio de hashtags #nãomereçoserestuprada #meuprimeiroassédio #chegadefiufiu #eutambém, o silêncio sobre assédio foi quebrado. Está claro que é praticamente unânime que qualquer mulher já sofreu assédio sexual, independente da idade, raça, orientação sexual, biotipo físico, tipo de vestimenta etc. Basta ser mulher.

Confesso que, como gorda, tive a ilusão de que o sobrepeso me traria uma espécie de capa de invisibilidade e de alguma forma me protegeria da agressividade de assediadores que insistem em confundir constrangimento com flerte. Mas até o corpo pode ser fetichizado quando o anseio da abordagem é essencialmente uma questão de poder, de encurralar o que se deseja chamar atenção.

Caminhava ontem à noite sob a chuva, ao lado de uma amiga, numa avenida movimentada e engarrafada, em plena hora do rush. No trajeto, passamos por uma barraca de espetinho e um jovem achou por bem nos abordar. Minha amiga estava distraída, mas eu escutei a pilhéria: “Por essa eu ia parar no presídio feliz”. Apesar de me sentir violentada, não consegui reagir.

Como mulher, a gente já ouviu todo tipo de absurdo, mas é consternante pensar o quanto falhamos como projeto de humanidade quando referência de crime sexual pode parecer uma cantada engraçada. Quando um homem admite mesmo que num pensamento que não se materialize que cometeria um estupro e que é ciente que isso é um ato criminoso isso não pode passar como brincadeira.

O privilégio masculino é que nada acontece com eles, que sempre se protegem e atenuam os agravos. O cantor Biel foi acusado de assédio por dizer a uma jornalista que a “quebraria no meio”. Seus fãs disseram que ele era um menino e não sabia o que fazia.

É horripilante esses tapas na cara que a gente leva todo dia inserida na cultura do estupro. Enquanto ejaculador de ônibus for liberado 17 vezes por constrangimento, homens vão continuar achando que assédio e crime não passam de uma piada. 

A arma afiada que uma cantada de rua pode conter

Reprodução / Meu corpo não é público