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A mostra de Basquiat no Brasil será um alento para o grafite

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A mostra de Basquiat no Brasil será um alento para o grafite

Reprodução / Pinterest

O nome de Jean-Michel Basquiat não é emblemático para a arte negra apenas por ser referenciado como primeiro artista negro famoso a romper o universo predominantemente branco das galerias de arte de Nova York. Sua meteórica carreira na década de 1980, até sua morte precoce aos 27 anos em 1988, é o marco do movimento em que o grafite expandiu-se da marginalidade para ser reverenciado como a mais pujante expressão do que hoje chamamos de arte urbana.

Basquiat validou e fez o mundo reconhecer o grafismo das ruas e a estética da periferia como uma arte valorosa. Assim, abriu caminhos para todos os artistas do spray que ainda hoje lutam por respeito e reconhecimento. Uma batalha eterna, já que até o presente momento, ainda existem gestores que acreditam que encobrir grafites que colorem a cidade com tinta cinza é plausível.

É muito simbólico que a São Paulo que luta em momento tão delicado se manter no mapa dos grandes murais do grafite da América Latina possa receber em 2018, no ano que se completa 30 anos da morte de Basquiat, uma exposição de obras do artista que ainda hoje impacta o mercado de arte. Este ano, um quadro seu foi vendido pelo incrível valor de US$110,5 milhões, tornando-se o oficialmente o artista americano cujo trabalho alcançou o preço mais alto em um leilão de arte.

Nascido no Brooklyn, Nova York, em 1960, Basquiat era um jovem sem-teto que vendia camisetas e cartões postais nas ruas e deixava suas marcas em grafites espalhados pelo SoHo, em Nova York sob o pseudônimo artístico SOMO (corruptela de Same Old Shit - a mesma “merda” de sempre, em tradução livre). Bastaram poucos anos para que seus trabalhos, de imagens provocativas que misturam referências da cultura africana, domínio de cor e a presença da palavra sejam elas crípticas ou tipográficas, chamassem a atenção e multiplicassem de preço. Seus primeiros desenhos vendidos na rua custavam 50 dólares, e no auge da carreira, já famoso parceiro de Andy Warhol e apontado como affair de Madonna, já superava a cifras milionárias na venda de seus quadros.

A mostra de Basquiat no Brasil será um alento para o grafite

Reprodução / myfreewallpapers 

Mas além do que está expresso em cada pincelada em seus trabalhos, acessar a obra de Basquiat nos deve levar a refletir sobre a sua vida, que se assemelha a trajetória de artistas negros que esbarram no inalcançável acesso às oportunidades. Jean-Michel Basquiat era filho de imigrantes, de Porto Rico e do Haiti. Viveu nas ruas uma biografia de vulnerabilidade tão inerente ao Brasil, sofrendo na pele os problemas de racismo e exclusão social. Fama e fortuna não lhe blindaram da fragilidade emocional que estruturou sua vida e aos 27 anos morreu de overdose de heroína em seu próprio ateliê.

Em 2018, a tão esperada mostra no Masp, que trará cerca de 40 obras de Basquiat, entre pinturas e desenhos, com um foco em personagens e histórias africanas, estará inserida no contexto temático "Histórias da Escravidão", cujas reflexões sobre narrativas africanas irão permear todo o ano de 2018 do museu. Que a vinda do trabalho de Basquiat, maior exemplo de artista negro, sirva como um espelho que nos faça refletir sobre nós mesmo. 

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Reprodução / Bontempo