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A polêmica camiseta da Febem é a piada que parou no tempo

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A polêmica camiseta da Febem é a piada que parou no tempo

Reprodução / Internet

Não consigo imaginar nenhuma explicação plausível para criação, aprovação e distribuição para venda da camiseta com o logotipo da extinta Febem feita pela marca Amp - A Mulher do Padre, que causou polêmica na internet e, após muitas críticas, foi retirada de circulação das lojas. Como numa cadeia de produção tão seletiva, ninguém ousou se perguntar se ali havia alguma possível problemática? E olhe que não faz nem um mês que pelo equívoco do moletom com os dizeres “macaco mais legal da selva” numa criança negra, a gigante sueca H&M amargou uma crise global de tamanha proporção que lojas foram quebradas em protesto na África do Sul.

A desculpa é sempre a mesma, a não intenção de ofender. Enquanto alguém não reclamar está tudo bem utilizar um símbolo de opressão e dor para vestir uma “piada”? A nota pública da marca vai um pouco além do lugar comum de simplesmente reconhecer um deslize e tenta encontrar alguma sustentação para a escolha. Obviamente saiu pior que o soneto.

Dizia a nota: “A AMP vem se desculpar pela inclusão de uma camiseta com logo da extinta Febem na sua linha LOST&FOUND. A LOST&FOUND é uma marca de camisetas de uniformes de companhias aéreas, instituições, concertos musicais e muitas outras que remetem a um passado distante . Consideramos que foi um erro a colocação de uma marca como a da Febem nessa linha, retiramos as camisetas imediatamente das lojas, e pedimos desculpas a todos”. Isso sem falar que numa versão anterior, que foi editada após diversas críticas, o texto completava [... um passado distante] com “que fizeram parte das nossas vidas de alguma forma”.

Mesmo usando como apelo o caráter “retrô” da coleção, acredito que as logos e referências eleitas pela loja seriam de caráter afetivo, marcas e memórias que amamos. O que há de passado afetivo de um instituição tão, mas tão estigmatizada que até o próprio nome Febem (Fundação para o bem-estar do menor) teve que ser mudado. Como a Febem poderia ter feito parte das vidas da clientela abastada da AMP que pode pagar R$ 96 pra vestir uma piada?

Não há como se isentar do viés classista da piada velha que parou no tempo. Esse tempo em que a Febem existia era o de desumanizar crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade chamando de “menor”, recebendo desde a alcunha um tratamento que menospreza e reduz a sua existência. O que desejaria então expressar o conceito hipster baseado num simulacro de miséria e falha do sistema? Em que país cabe fazer “homenagem” a estruturas opressoras como um restaurante chamado Senzala e uma vestimenta de Febem? Existe algo nesses símbolos capaz de nos trazer orgulho ao utilizá-los?

Não é, entretanto, o primeiro episódio de fetichização da pobreza que ganha as prateleiras comerciais, uma forma de fazer de uma realidade alheia um discurso vazio estampado num produto. Outra marca descolada, a Osklen, já havia criado uma camiseta com “Favela” em letreiro fashion. Se não existisse um público sedento para se apropriar de algo esses “erros” não seriam recorrentes. E festas como a inacreditável Se nada der certo ou a recifense que ainda resiste I Love Cafusú não surgiriam ainda diante dos nossos olhos. Existe uma parcela da elite que acha cool se vestir de pobre, desde que, de fato, não se viva e conheça a pobreza além de uma piada de mau gosto.

A polêmica camiseta da Febem é a piada que parou no tempo