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Acusada de racismo, Lena Dunham retrata pior modelo de "feminista branca"

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Acusada de racismo, Lena Dunham retrata pior modelo de "feminista branca"

Harold e Aurora Perrineau x Lenna Dunham (Reprodução / Afropunk)

Numa retrospectiva de 2017, os escândalos de Hollywood afundaram algumas carreiras, principalmente de homens sob graves acusações de assédio e abuso sexual, mas a trajetória da diretora Lena Dunham também saiu chamuscada por episódios considerados racistas em uma série de deslizes públicos.

No Brasil, não se falou muito que, além de ser frequentemente questionada sobre a ausência de pessoas negras na série "Girls", criada e dirigida por Dunham (famosa feminista defensora da quebra de padrões de beleza e liberdade sexual das mulheres), a artista acabou envolvida em acontecimentos que tangem problemáticas raciais, como o pedido de demissão de uma roteirista negra e a atual declaração do ator negro Harold Perrineau em defesa da sua filha, também atriz, Aurora Perrineau.

Primeiro, vamos recapitular a história. Em meio à avalanche do movimento #metoo, em que diversas mulheres denunciaram publicamente através do uso da hashtag seus algozes em casos de violência sexual, a atriz Aurora Perrineau escreveu um depoimento que denunciava o roteirista de "Girls" e amigo de Duham, Murray Miller, por estupro.

Algum tempo antes disso, Lena tinha declarado no Twitter: “Coisas sobre as quais mulheres mentem: o que elas comeram no almoço. Coisas sobre as quais mulheres não mentem: estupro”. Mas no caso de Murray Miller, ela tentou contemporizar e desmerecer a fala de Aurora Perrineau declarando, ao lado da produtora da série Jenni Konner em um depoimento ao site Hollywood Reporter, que acreditava num mal entendido: “Enquanto nosso primeiro instinto é ouvir a versão de todas as mulheres, nossa vivência de bastidores sobre a situação de Murray nos deixa confiante que infelizmente essa acusação está entre os 3% de falsas denúncias de estupro todos os anos”.

A tentativa de defesa de Murray caiu como um bomba para a imagem feminista de Lena Dunham, que acabou se sentindo obrigada a fazer um pedido de desculpas para acalmar as críticas. Mesmo assim, a escritora negra Zinzi Clemmons, que foi colega de faculdade de Dunham, e se tornou redatora para sua revista feminista Lenny Letter, postou no Twitter a acusando de racismo ao pedir demissão do emprego.

“Está na hora de mulheres não brancas, e especialmente mulheres negras, se afastarem de Lena Dunham e pararem de apoiá-la”, escreveu Clemmons. “Nós duas participávamos dos mesmos círculos durante a faculdade, mas eu costumava evitá-la e também seus amigos, porque sabia que eram racistas. Eles praticavam o que eu chamo de ‘racismo hipster’, que usa sarcasmo como um disfarce. Eles dizem que é só uma piada quando você os questiona, diz que você é histérica e está exagerando. Usavam palavras ofensivas para serem ‘provocativos’. Muitas vezes estive na mesma sala que essas pessoas, mas só as observava de longe, sentindo ansiedade e horror”, desabafou.

Recentemente quem decidiu se manifestar publicamente contra a postura de defesa seletiva ao virar as costas para uma mulher negra foi o pai de Aurora, Harold Perrineau, mandando recado para a estrela de "Girls" que ela e seus amigos “mexeram com a família errada”. “A todos vocês que acham que podem se safar de seus abusos, a todos os seus amigos com 'informações de bastidores' e pública influência, eu digo, vamos deixar a polícia fazer seu trabalho", completou.

Defender uma causa uma progressista e a pauta de direitos civis não isenta ninguém de manifestar preconceito em relação a outro grupo ou minoria. A exemplo de homens que se posicionam a favor de causas sociais como a classe trabalhadora podem ser machistas, os famosos esquerdo-machos, ou defensores da agenda gay podem ser misóginos, feministas brancas podem apresentar comportamento racistas.

Ser ativista, obviamente, não transforma ninguém em símbolo global de santidade. Lena Dunham se mostra exemplo comum de ser humano em suas inequívocas contradições, sendo aquele modelo de feminista branca com sororidade seletiva e displicência tóxica às questões das mulheres negras. Resta saber se, assim como os homens cujas obras estão sendo boicotadas devido ao seu questionável comportamento, as pessoas vão deixar de assistir a "Girls" em protesto ao racismo de Dunham. Uma boa dica é adotar Insecure, no mesmo canal HBO.