RAÇA

Consciência Negra: todo dia um 7 x 1 da vida real

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Consciência Negra: todo dia um 7 x 1 da vida real

Reprodução / Youtube

Dia 20 de novembro, data da morte do líder quilombola Zumbi dos Palmares, é celebrado no Brasil o Dia da Consciência Negra. Enquanto ainda tem quem diga que é a existência de um marco comemorativo que exacerba o racismo, uma breve tour pelo principais eventos do dia nos mostra como o assunto que é praticamente invisibilizado ou tratado de maneira equivocada durante os 364 dias do ano.

Com essa lista, dá pra ilustrar que na luta pela igualdade racial, é praticamente um 7 x 1 (mais doloroso que aquele vexame futebolístico que a gente passou contra a Alemanha) todo dia. Vamos apenas passear pelas últimas 24h? Obviamente, não há nenhuma intenção de diminuir a relevância positiva de todo o material produzido, publicado, repercutido a partir de todas as ações que foram propostas para a data, mas os fatos não nos deixam fingir que não vê a dimensão da problemáticas racionais.

1. Racismo = deselegância?

Todo mundo lembra do caso turbante? Principalmente quando uma mulher branca diz que foi intimidada por mulheres negra. Do caso que uma mulher negra agredida e ter o turbante jogado no chão durante uma festa de formatura, nem sempre. Nesse caso, a justiça também faz vista grossa. O Ministério Público de Minas Gerais optou pelo arquivamento do processo. O promotor Sylvio Fausto de Oliveira Neto, considerou que foi uma "deselegância", não injúria racial.

2. Consciência Humana

Sabe aquele negócio chamado lugar de fala? Pois é, único dia do ano para se dar voz a pessoas negras e a branquitude do alto de seus privilégios faz o quê? Dá opinião sobre racismo, claro, porque suas relações afetivas lhe dão autoridade para falar. Nada contra, as redes sociais existem para que cada pessoa faça o broadcast da sua vida. Mas temos um problema de representatividade quando têm mais atenção os discursos de pessoas que não são negros sobre as opressões que a gente é que passa. Grandes exemplos, o depoimento da humorista Mhel Marrer e a repercussão do post de Instagram de Leandra Leal bombarem mais que as falas de Gilberto Gil ou Gaby Amarantos.

3. Blackface em 2017?

É impressionante que brancos ainda se pintem de preto para representar pessoas negras. Mais estarrecedor ainda é quando deveria ser uma homenagem e crianças estarem justamente aprendendo sobre consciência negra em sala de aula.

4. A outra Glória que não tem condições de opinar

A força da voz que Glória Maria poderia usar para pautar racismo na mídia ela usa pra deslegitimar a luta e enfraquecer a data citando Morgan Freeman e a tal “consciência humana”. Desnecessário. E quanto mais tentou se defender pior a emenda: “Aprendi a lutar pela minha liberdade! Sobre Escravidão e Racismo aprendi com minha própria família! Não no Google!". Ficaram bem "meritocráticos" os argumentos, esquivando-se das questões estruturais. Se não pode ajudar, não atrapalha, Glorinha. Basta seguir sendo um grande exemplo.

5. Truculência contra cultura popular

Depois que Otto subiu ao palco do festival Mimo, em Olinda, pra fazer um show em homenagem ao percussionista Marcos Axé, negro, que morreu no último domingo (19). A plateia seguiu invocando a cultura popular negra, entoando uma roda de coco improvisada no meio da praça, repleta de pessoas negras. A manifestação foi reprimida com violência pela Polícia Militar de Pernambuco. Parece que estamos no século 19 ouvindo aquela cantiga de roda símbolo do racismo institucional: “Pai Francisco entrou na roda, tocando seu violão. Vem de lá seu delegado, e Pai Francisco foi pra prisão”.

6. O alto da pirâmide nunca chega

Uma pesquisa feita com mais de 500 empresas brasileiras mostra que pretos e pardos ocupam só 10% dos cargos de chefia. Mais de 50% da população economicamente ativa do país, as pessoas negras são apenas 6% entre cargos de gerência e menos de 5% de diretores ou presidentes.

7. O gestor de educação que quer que “as raças se fodam”

E o que dizer do secretário estadual de educação do Rio de Janeiro que aproveitou o Dia da Consciência negra pra dizer que a “racialização” é uma invenção norte-americana - estudou muito a história da escravidão no Brasil, com certeza - e que o discurso da Taís Araújo no TedEx sobre racismo é “idiotice” racial? 

Realmente foi uma goleada daquelas na luta contra a igualdade racial. Mas nesse 7 x 1 do Dia da Consciência Negra, ficou pra comemorar o golaço de placa de Elza Soares lançando uma impactante versão da canção A Carne. ''Nesse dia 20 de novembro, como todos os outros dias do ano, reforço o meu grito: a carne mais barata do mercado foi a carne negra. Não é mais a carne negra. Eu sou negra. Minha mãe é negra. Minha voz é negra. O Brasil é negro'', declarou a cantora. Manter o orgulho nacional não está mesmo sendo fácil, mas que bom que existem divas como Elza para renovar nossas esperanças.