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Desigualdade racial afeta vida e morte das mulheres negras em Pernambuco

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Desigualdade racial afeta vida e morte das mulheres negras em Pernambuco

Reprodução / Jornal do Commercio

“A dor da gente não sai no jornal”, diz a canção de Chico Buarque que consegue versar sobre a invisibilidade da realidade de quem é pobre e tem e a pele preta no Brasil. Mulheres negras e pobres são as mais vulneráveis aos diversos tipos de violência institucional, psicológica, física e sexual. Mas no dia a dia, nos noticiários das cidades, costumam estampar manchetes apenas preenchendo estatísticas.

Delas pouco lembramos os nomes nas notas policiais, mal sabemos as suas histórias e por elas não criamos hashtags ou usamos camisetas brancas para pedir paz ou justiça. Se não morrem à míngua, espera-se que sejam fortes suficientes para sobreviver a uma rotina de humilhações e violações, de preferência caladas, inertes, resilientemente subalternas.

Pernambuco, onde vivo, é um dos estados com maior número de feminicídios do país, e sabemos que a carne mais abatida é a negra. Então é de crucial importância quando o maior jornal em circulação da região, o Jornal do Commercio,  se propõe a falar das especificidades das mulheres negras quando o assunto é violência contra mulher, num estado em que a cultura racista e machista (da colônia açucareira) se preserva como tradição popular. O trabalho de Ciara Carvalho #Aculpanãoédelas, uma reportagem especial sobre a naturalização da responsabilização das vítimas no contexto da violência contra mulher, dedica um justo espaço para vozes de mulheres negras e sua realidade.

Vive-se aqui um cenário hostil: 82 % das mulheres assassinadas em Pernambuco, nos sete primeiros meses de 2017, eram negras. Número bem acima da média nacional que apontava em 2015 que 64 % das mulheres assassinadas tinham a pele negra. Entre elas, o número de homicídios em uma década cresceu 22% enquanto o de mulheres brancas declinou 7% no Estado. Dos registros de violência doméstica, 66 % das vítimas são mulheres negras. Em questão de saúde pública, 73 % das mulheres mortas por AIDS em Pernambuco em 2013 eram negras. São as que mais sofrem com a falta de atendimento e mais suscetíveis à violência obstétrica, por exemplo.

Esta terra que maltrata mulheres negras é a mesma que pariu o pai da “democracia racial”, Gilberto Freyre ("Casa Grande & Senzala") que tratou de sublimar a violência de gênero e raça culpabilizando a mulher negra por sua volúpia, responsável pelos instintos incontroláveis do homem branco, ele sim, coitado, uma vítima da ardilosidade da fêmea fértil que misturou a nação e nos tornou a todos “mestiços”, num verdadeiro arco-íris racial de convívio pacífico. O sangue das mulheres negras é que mostra essa falácia. A desigualdade racial afeta a vida e a morte dessas mulheres.