MÚSICA

É possível falar de apropriação cultural no clipe 'Vai Malandra', da Anitta?

Author
É possível falar de apropriação cultural no clipe 'Vai Malandra', da Anitta?

Reprodução / Youtube

Não faz nem 24 horas do lançamento virtual de Vai Malandra, novo clipe de Anitta, e já nem dá mais pra contar as inúmeras polêmicas envolvendo o vídeo que dominaram a internet nesta segunda-feira. São muitas as pautas como a treta com Lulu Santos, a direção de Terry Richardson - fotógrafo acusado de assédio sexual, o biquíni de fita isolante, a celulite aparente e claro, assim como à época das gravações, voltou à tona a questão de apropriação cultural do hit sobre a negritude e a periferia destacadas nas imagens.

Como bem destacou um amiga, fica no ar a dúvida se o clipe é um passo para o empoderamento real de Anitta por suas origens, a ascendência negra e a ambiência da favela, ou se trata de um movimento puramente comercial de empacotar tudo numa imagem palatável de estética do funk e transformar num produto exportação, a própria configuração da apropriação cultural.

Ao meu ver, Anitta identificar-se com uma mulher negra e favelada daria a seu trabalho um projeto impactante, capaz de transformar valor simbólico: a periferia que chegou ao topo, uma representatividade real. Mas será que aquela mesma Anitta, camaleoa, que alterou cabelos e traços largos até com cirurgia, ao bel prazer da demanda de mercado, caminha para uma novo status de engajamento racial a exemplo de Beyoncé? Será que ela estaria dando passos semelhantes para primeiro conquistar a indústria depois o usar o poder da sua voz para propagar uma causa? Seria lindo, mas não dá pra saber se é bem esse o posicionamento.

É possível falar de apropriação cultural no clipe 'Vai Malandra', da Anitta?

Anitta antes e depois da fama (Reprodução/ Internet)

Entre as reflexões dá pra suscitar algumas perguntas. Se a ideia é mesmo mostrar ao mundo a favela como ela é, lhe empoderando em representatividade, o olhar ideal para traduzir autenticidade é mesmo de um diretor gringo conhecido pela exploração da imagem sensual dos corpos que observa? Se a favela representada do clipe é mesmo um retrato vívido da atmosfera do Vidigal, porque as minorias como pessoas negras e trans quase não aparecem - a não ser naquele bailão funk estereotipado de safari antropológico - e à laje só é permitida a presença de saradas brancas ao estilo panicats e de supermodelos como Elton Charles fantasiado de funkeiro? Não parece mais uma expressão da favela show para o mercado, já consolidada com produtos como Cidade de Deus, que o próprio Terry Richardson deve ter usado como premissa?

E o histórico da Annita também não ajuda, além de ignorar todas as oportunidade que já teve de abordar questões sobre raça, e nunca tocar no assunto, são notórias as suas estratégias de tentar vender uma imagem de Brasil internacionalmente aceita, sensual e Kitsch, como já fez em outras empreitadas como "Is That for Me", filmado na Amazônia. O cabelo trançado e encrespado combina mais com a imagem simbólica do funk, tal qual a laje e o bronzeamento, a exemplo que o penteado escuro e ondulado combina mais com o cenário “latino” de Downtown.

Não sendo eu especialista em análise de apropriação cultural, debate que merece perspectivas mais profundas como a de Djamila Ribeiro, penso que como uma mulher negra (mesmo que não haja ainda autoafirmação) e periférica de origem, é no mínimo complexo acusar a Anitta simplesmente de se apropriar de algo que de fato ela pode integrar como um símbolo. Mas algo me diz que se uma identidade cultural e racial pode ser trocada, entrar e sair de cena, como uma roupa, não dá pra dizer que se trata realmente de uma circunstância social como para quem vive na pele todos os dias. 

A depender da postura, resta ao tempo dizer se o clipe da Anitta veio para inspirar meninas negras e faveladas do Vidigal e contribuir para sua autoestima ou se foi mais uma passagem mítica e esfuziante como a de Michael Jackson na Rocinha.  Como disse a jornalista Lenne Ferreira, feminista negra: "Afinal, a quem Anitta está empoderando, além do seu próprio bolso?"