RAÇA

Em novo programa, Lázaro Ramos nos representa

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Em novo programa, Lázaro Ramos nos representa

Crédito: Patricia Stavis/ TV Globo

O anúncio de Lázaro Ramos à frente de um programa de entretenimento na TV Globo foi celebrado como um projeto popular. "Lazinho com Você" estreou no último domingo com bastante interatividade nas redes sociais e conteúdos colaborativos para mostrar que a principal ideia do projeto é dialogar com a comunidade, por meio da imagem carismática de Lázaro - primeiro apresentador negro à frente de um programa de entrevistas na rede.

A maior emissora do país vem sofrendo perdas de audiência para a programação conservadora e ascensão dos produtos evangélicos da Record e, por outro lado, perdendo espectadores para o crescimento de outras mídias, como as TVs pagas e as plataformas online a exemplo de Youtube e Netflix. Não está fácil manter o império quando a fidelidade do público da TV aberta mantém-se basicamente nas classes C e D.

A publicidade e showbiz já entenderam que as pessoas atualmente consomem tanto discursos como produtos com os quais se identificam. Colocar Lázaro Ramos, o mais famoso negro da casa, como apresentador é uma estratégia para tentar estabelecer uma conexão com aquilo que ele tem de “gente como a gente”. O ator baiano é a cara do povo brasileiro, negro e de origem periférica. É o exemplo do negro (exceção que confirma a regra) posto para simbolizar uma democratização da representação da negritude na TV.

Em "Lazinho com Você", o apelido já denota uma intimidade que o talento de Lázaro imprime ao entrar na casa, na vida e na indagações das pessoas com quem interage. O apresentador tem uma delicadeza que realmente lhe coloca em posição de diálogo e não somente explora as histórias garimpadas com intuito de garantir Ibope. Há um objetivo perceptível de fazer de outro jeito aquele jornalismo de “fala povo”, que abre o microfone para anônimos.

O programa tenta preencher aí vazios que a Globo não consegue mais na sua programação semanal. É um lugar com abertura para a periferia, mas sem a caricatura histriônica do "Esquenta" de Regina Casé. Tem uma pegada de entrevistas, mas sem universo fake inalcançável do "Estrelas" de Angélica, que coloca celebridades em situações tão irreais que ela cheia de restrições alimentares nem provava as receitas que eles fingiam que preparavam. Pretende-se como um espaço para emocionar e homenagear, sem o assistencialismo panfletário de Luciano Huck. E supera bastante aquele modelo equivocado de tentar adentrar a vida das pessoas simples com intimidade que fica apenas no título em "É de Casa", de Patrícia Poeta e Zeca Camargo.

Ainda é, no entanto, um produto bem global, com uma estética higienizada demais pra ser um retrato real, e um zelo de superprodução que às vezes embota as possibilidades de emocionar e tocar. Mas Lázaro parece ser um cara disposto a usar a mega estrutura em para provocar outras conversas, outros caminhos, como já faz no programa "Espelho", do Canal Brasil.

Ter um negro como Lázaro Ramos, por sua voz à frente das questões raciais e por seu poder em transitar entre o popular e o refinado, é de extrema significância para que cada dia mais a grade da TV brasileira possa ser mais colorida e diversa. É uma forma de ocupar o topo da mídia e dar a pessoas negras a possibilidade de se enxergar num universo que sempre é negado e invisibilizado. Numa emissora que comprovadamente mais de 90% dos papéis de destaque são designados a brancos e que apresentadores negros são ainda raríssimos. Lazinho nos representa, e a gente está com ele para preencher ainda mais espaços.