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Em termos de invisibilidade racial, as capas de Time e Istoé são bem parecidas

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Em termos de invisibilidade racial, as capas de Time e Istoé são bem parecidas

Reprodução / Revista Fórum 

Ao primeiro momento foi um reflexo quase instantâneo comparar as edições de “Pessoas do Ano” da revista norte-americana Time com a brasileira Istoé pelo viés empoderamento x manutenção de status quo ou diversidade x conservadorismo.

A Time considerou as personalidades mais relevantes de 2017 mulheres que tornaram públicos abusos sexuais e colocaram a violência de gênero - principalmente com os escândalos dos bastidores de Hollywood - no topo do debate da mídia internacional. No Brasil, o semanário Istoé trouxe uma lista questionável com figuras conservadoras como o juiz Sérgio Moro e o apresentador Luciano Huck, entre outros homens brancos poderosos, ao lado de apenas duas atrizes globais com quase nenhum destaque em questões sociais. O retrato clássico de homenagem a pessoas que já detém poder e visibilidade dentre seus privilégios sob a pecha de “bem sucedidos”.

De fato, o movimento feminista tem mais é que comemorar toda a repercussão que as mulheres conseguiram impor nos últimos tempos, não é a toa que “feminismo” foi considerada a palavra do ano pelo dicionário americano Merriam-Webster. A capa da Time é realmente histórica e não se deve tirar o mérito da sua importância. Mas pouca gente reclamou que mesmo sob um discurso progressista, a Time acaba se assemelhando à Istoé em sua escolha editorial de whitewashing (embranquecimento das personas).

Logo de cara, a Istoé foi duramente criticada por além de não trazer nenhuma pessoa negra na sua lista, ainda ilustrar outra chamada na capa que dizia “Racismo raivoso - por que esse mal ainda resiste no Brasil”. Choveram comentários que a simbologia da própria capa era um dos elementos que respondem a tal questão. 

A Time foi mais sutil, colocou uma mulher negra na capa para se blindar de revezes, mas cuidou de apresentar uma mulher negra com a imagem de ocidentalidade aceita e digerida pela branquitude: mestiça de olhos claros e pele não muito escura. No entanto, invisibilizou a principal personagem da história, Tarana Burke, a criadora do movimento que deu início a todo barulho sobre assédio, o movimento #metoo e não apareceu na capa da revista.

Uma das poucas vozes a problematizar o silenciamento racial da Time no Brasil foi a blogueira Stefanie Ribeiro: “[#metoo[ Slogan que foi postado esse ano pela atriz Alyssa Milano com o mesmo intuito - e que agora todo mundo acha que é um movimento que surgiu organicamente, quando, na verdade, é apenas o uso da ideia de uma mulher negra, que não estampa capas de revista. Pois mesmo que sua ideia tenha sido brilhante, mesmo que seu projeto seja incrível e mesmo que #MeToo mereça estar sim na capa da revista Time, a cor, o rosto, o nariz, o cabelo e a vida de Tarana Burke não faz dela a personagem para estampar a sua própria ideia, um projeto que por anos foi negligenciado pelo mesmo movimento de mulheres brancas que lembrou dele quando lhe foi conveniente. Nós fomos novamente apagadas”, escreveu em sua coluna #BlackGirlMagic, na Marie Claire.

Em outubro o New York Times fez um artigo “A mulher que criou o #metoo muito antes das hashtags” sobre Tarana Burke contando a história de como ela, após ouvir o relato de uma menina de 13 que sofreu abusos, resolveu dez anos depois criar uma organização para apoiar mulheres vítimas de assédio, a JustBeInc, e como idealizou a campanha MeToo em 2007.

E a Time não pode nem tentar disfarçar que não conhece a relevância do trabalho de Burke, já que ela é uma das entrevistadas da campanha digital sobre a capa. É notório que seu biotipo não foi considerado suficientemente legítimo para estampar a imagem da revista. Dessa forma, ajuda a reforçar a ideia de que a “cultura negra é popular, desde que você não seja negro”, mantendo na indústria da comunicação o círculo de apropriação de ideias e invisibilidade aos talentos negros e suas obras. Em termos de invisibilidade racial, as pessoas do ano de Time e Istoé até que são bem parecidas. 

Em termos de invisibilidade racial, as capas de Time e Istoé são bem parecidas

Tarana Burke. Crédito: JustBeInc.org