RAÇA

Empresas não podem mais fazer vista grossa para o racismo interno

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Empresas não podem mais fazer vista grossa para o racismo interno

Reprodução / Internet

Pouco adianta fazer media training, elaborar campanhas milionárias que pregam diversidade e quebra de padrões para angariar empatia, estabelecer o mais afiado time de marketing, se da porta pra dentro as empresas não vivenciarem e acolherem o que pregam para conquistar clientes. Discursos vazios estão em xeque e o mundo corporativo está sentindo a pressão de que tais contradições não passam mais despercebidas.

Recentemente acompanhamos dois casos em que a repercussão diante de manifestação de racismo exigiu de empresas um posicionamento enfático para evitar uma péssima reputação da marca: a multinacional Salesforce acabou demitindo um funcionário, um diretor e o presidente da sede brasileira depois de uma questionável festa à fantasia com direito a blackface. Em Salvador, uma padaria que atendia recorrentemente uma cliente racista foi imputada a denunciá-la a polícia somente quando a clientela se manifestou a respeito.

Contextualizando o caso da Salesforce, durante a confraternização de fim de ano, houve uma festa à fantasia que premiaria em dinheiro os melhores looks. Um dos premiados foi um rapaz vestido do meme "Negão do WhatsApp", com uma indumentária que além do blackface (“pintar-se de negro) vulgariza e objetifica o corpo do homem negro com uma prótese peniana.

Diz que a matriz nos EUA ao saber do ocorrido solicitou a demissão imediata do funcionário. Um diretor comercial no Brasil, que inclusive aparece nas fotos festejando com o rapaz, tentou impedir a dispensa. Em represália, teve sua demissão também pedida, e o presidente Maurício Prado decidiu intervir pedindo clemência, justificando que no Brasil somos “mais liberais” em relação a esse tipo de piada. A Salesforce americana não pestanejou e demitiu os três.

O mais impressionante é que até os americanos se horrorizarem, ninguém se chocou com a piada racista à la Dear White People, não houve indignação no Brasil. E muitas das reportagens que abordaram o assunto, mal falam sobre a simbologia racista da fantasia, e sim do conteúdo “pornográfico”, apenas. O Brasil tanto tolera blackface disfarçado de piada que em carnavais passado, a mesma fantasia também foi premiada num baile elitista de Carnaval no Recife, e apesar das denúncias, quase ninguém comentou sobre ele além de Djamila Ribeiro.

Vale ainda lembrar a rescisão de contrato do jornalista William Waack com a TV Globo, que se viu obrigada a cortar o vínculo com o apresentador após o escândalo do flagra em vídeo em que tecia comentários como “é coisa de preto”. As denúncias internas sobre o caso não havia causado nenhuma restrição à reputação de Waack. Somente com o vazamento do conteúdo a questão tornou-se insustentável.

Em comum, o fato de que a despeito de uma força maior, as pessoas envolvidas não enxergaram o racismo como uma problemática aviltante digna de medidas coercitivas e isso diz muito sobre o Brasil, um sociedade que tolera racismo e o percebe pouco como violência estrutural e muito como uma piada e irreverência pouco relevante.