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Guia africano ensina turistas a evitarem fotos constrangedoras

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Guia africano ensina turistas a evitarem fotos constrangedoras

"Complexo de branco salvador" (Reprodução / AJ+)

Muitos turistas imaginam que traçar um roteiro pela África é uma viagem além de um território desconhecido, é uma aventura antropológica. Dados estigmas de representações que exotificam o continente, como por exemplo a saga de Indiana Jones e outras produções hollywoodianas, o turismo ocidental transformou visitas à África em uma “grande experiência pessoal” para ser compartilhada.

Em resumo, muitas pessoas acabam, mesmo que involuntariamente, registrando e divulgando imagens que constrangem comunidades locais, como se elas fossem parte da paisagem “diferente” que os turistas gostariam de exibir nas redes sociais para ganharem muitos likes por suas comoventes vivências em países pobres, muitos deles em circunstâncias de voluntariado em ações sociais nesses lugares.

Para combater as práticas de exposição degradante de pessoas em situação de pobreza e vulnerabilidade por esse perfil de “branco salvador”, o SAIH (Norwegian Students’ and Academics’ International Assistance Fund ), por meio do projeto Radi-Aid, desenvolve ações de combate a estereótipos em ações humanitárias e de desenvolvimento global.

O projeto criou uma série de ações em redes sociais para alertar a respeito dos tipos de imagens predatórias que causam incômodos. A principal delas é o perfil irônico no instagram Barbie Savior (Barbie Salvadora), que “clica” digitalmente a internacionalmente famosa boneca em situações ridículas de selfies no meio da África, em que ela obviamente ocupa o papel de grande missionária. As postagens são uma crítica afiada a quem por lá tira suas inocentes selfies, mas reproduzem a ideia de que são salvadores de pessoas que inspiram compaixão e pena, e reforçam a ideia que só o Ocidente pode salvar a África de sua dilacerante miséria, e que os voluntários atuam como heróis.

Levar ajuda humanitária a regiões necessitadas da África não é em si um problema, mas não contextualizar as situações e não contar suas histórias com mais profundidade desumaniza africanos e os reduz a simples necessitados, como se não fossem dignos de protagonizarem suas histórias. A quem é dado o direito de fotografar crianças sem autorização de responsáveis? De lhes dar doces e fazer selfies sem nem perguntar seus nomes, de lhe prometer brindes e outras trocas como se fora o próprio embaixador da felicidade colonizadora? Já pensou que ninguém chega no meio da cidades europeias e junta um monte de crianças desconhecidas num parque pra uma selfie sem nem se perguntar “cadê os pais delas”?

Guia africano ensina turistas a evitarem fotos constrangedoras

Reprodução / Black Pigeon Speaks

Para coibir comportamentos questionáveis, a campanha também elaborou uma guia que explica o tipo de fotos que não são legais de registrar. Se você está com passagens marcadas para a África, por favor, não seja o branco salvador que:

- Dá doces ou faz um “toca aqui” com crianças (muitas vezes enchendo de promessas e sonhos crianças em situação de pobreza)

- Tira fotos de crianças brincando sem autorização e sem conhecê-las (violando sua privacidade)

- Clica crianças doentes em hospital (ainda precisa dizer que nenhum ser humano deve ser invadido em situação de vulnerabilidade?)

Isso tudo não quer dizer que não dá pra fazer fotos incríveis da passagem pela África. É só tomar o cuidado de contar a história realmente como ela é, dando voz e lugar de autenticidade para quem aparece em cena, mostrando como são agentes construtores da história daquela comunidade. Você escreveria um livro sem dar nome às personagens? Também é importante estar atento para contextualizar os processos complexos e globais que perpetuam problemáticas sociais na África, além de simplesmente parecer um herói na foto.