RAÇA

Homens negros levantam a voz para refutar estereótipos

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Homens negros levantam a voz para refutar estereótipos

Crédito: Sam Burriss

Nós mulheres negras somos de fato a camada mais afetada pelas problemáticas profundas estabelecidas por séculos de cultura patriarcal e escravagista. Mas homens negros, apesar de alguma forma contemplados pelas estruturas do machismo, sofrem de maneiras específicas consequências do racismo em relação ao gênero. Homens negros são afastados de sua humanidade, sendo recorrentemente brutalizados, numa visão coletiva que quase sempre os enxerga (quando enxerga) como irracionais, hipersexualizados e violentos. Negros são corpos, não mentes, quando reconhecidos.

Novembro se aproxima, o mês da consciência negra. Que ótimo período para associar na mesma sentença negro + consciência. Em discursos afirmativos, alguns homens negros estão aproveitando o espaço midiático que conquistaram para refutar estereótipos que também os massacram. Massacre não é hipérbole quando a maioria das mortes violentas envolvem jovens negros, seja na economia mais relevante do mundo, os Estados Unidos, que ainda protagoniza o clamor mundial do #vidasnegrasimportam (#blacklivesmatter) ou aqui no nosso periférico universo, um país onde mais se mata no mundo e mais da metade dos homicídios atinge garotos entre 15 e 29 anos - 77% deles são negros.

A desconfiança com que a sociedade e a força policial perseguem o homem negro é o tema de um interessante e controverso artigo do ativista Hari Ziyad, na comunidade Afropunk, intitulado: "Eu não estou interessado em aliviar o medo que as pessoas brancas têm de negros desconhecidos" (I’m not interested in alleviating the fear white people have of Black strangers). 

No artigo, que é um pancada no estômago para brancos e negros, ele reflete que não se sente diferente da experiência universal do negro que percebe que as mulheres brancas agarram suas bolsas quando em sua presença. A diferença é que ele não se importa com a existência do medo intrínseco por questões raciais. Por uma ótica provocativa, inverte os papéis: “Eu sei por que a mulher branca protege sua bolsa e sei que ela também sabe. Como disse meu amigo Preston Anderson, tudo dentro da bolsa, tudo e muito mais, pertencia aos meus ancestrais que foram mortos para que ela pudesse ter aquilo. Tudo.” Vale a leitura, e vale acompanhar seus textos que têm preciosidades como “não podemos culpar os negros por apropriação cultural”. Sempre trazendo uma abordagem inteligente e aprofundada para questões que causam polêmicas rasas na internet.

Outros homens que também resistem aos estigmas que sofrem estão reunidos numa matéria oportuna da Revista Trip. O especial Negro Drama cumpre uma lacuna necessária: estabelecer um espaço de representação de homens negros diante de um debate intelectual da realidade de sua masculinidade. O texto reúne opiniões valiosas de personalidades como o ator e diretor Jé Oliveira, o sociólogo Túlio Custódio, o estudante Caio César, o psicólogo Alessandro de Oliveira Campos e do cineasta Bruno Victor. Além de referências teóricas ao filósofo e psiquiatra martinicano e francês Frantz Fanon (Pele negra, máscaras brancas) e do sociólogo jamaicano Stuart Hall (Cultura e representação).