ECONOMIA

Meritocracia em xeque: escolaridade não reduz desigualdade salarial

Author
Meritocracia em xeque: escolaridade não reduz desigualdade salarial

Foto: Rochelle Nicole 

Meritocracia é aquele discurso que desloca para o esforço individual a responsabilidade das prerrogativas para que o sujeito conquiste o sucesso. Resumo da ópera, é fazer crer que o esforço é proporcional ao resultado, ou seja, quanto mais você, sozinho, se sacrifica para prosperar, mais longe chegará na escala de reconhecimento (social e financeiro). É uma maneira até pueril de tentar livrar as perspectivas sócio-econômicas que determinam quem tem mais condições estatísticas de bem estar social e quem ao longo da história parte de uma realidade de falta de oportunidade de crescimento.

O mito da meritocracia se sustenta basicamente em dois elementos: a justificativa com casos pontuais de superação (histórias de pretos que venceram adversidades cruciais e prosperaram, por exemplo) e a recusa à noção de privilégios (tipo "eu ralei para conseguir o que conquistei, então é meu por direito"). Até porque não dá pra dizer dizer que pessoas em situações diferentes também não dediquem suas vidas a tentar que elas melhorem, a questão é se elas têm chance real de conseguir. Nem tampouco é bonito glorificar quem teve que vencer diversas batalhas para conseguir um lugar ao sol. Todo mundo deveria ter possibilidade de acesso a direitos fundamentais para ter uma vida digna, sem precisar ser um mártir ou um herói pra isso.

Seguindo a lógica meritocrática, que ignora questões estruturais que mantêm homens brancos no topo da montanha, duas pessoas igualmente habilitadas estão em pé de igualdade na disputa de um emprego ou do salário que recebem pela mesma tarefa. Mas os fatos não dão sustentabilidade a esse tipo de argumento. Faz décadas que o movimento feminista aponta que a desigualdade de salários entre homens e mulheres é uma discriminação de gênero e não uma suposta falta de mulheres capacitadas.

Quando aponta-se que no Brasil a desigualdade salarial entre brancos e negros é parte de uma problemática racial, o recurso meritocrático tende a argumentar que pretos ganham menos no Brasil porque são menos especializados, com menor formação educacional e essa é a única causa da disparidade. Ou seja: a pouca qualificação dos negros é determinante para que eles recebam em média metade da renda dos brancos.

Porém uma pesquisa recente da Fundação Seade junto com o Dieese, aponta que o nível de escolaridade não equipara a renda entre brancos e negros. Até piora. Na Região Metropolitana de São Paulo, corpus do estudo, no nível médio, negros recebem o equivalente a 85% da faixa salarial de brancos. No cenário universitário, negros graduados recebem apenas 65% em relação aos brancos. É a prova de que educação não é suficiente para resolver a desigualdade racial no mercado de trabalho.

Não dá pra colocar na conta da educação a disparidade. As oportunidades para o desenvolvimento de carreiras para negros esbarram em questões mais abstratas como a maneira como são enxergados pelos tomadores de decisão. Quer ver um exemplo de que o mercado não percebe da mesma forma profissionais brancos e negros? Assista a essa campanha criada pelo Governo do Paraná para tratar de racismo institucional: