MÚSICA

Não há nada de leve em funk que relativiza cultura do estupro

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Não há nada de leve em funk que relativiza cultura do estupro

Jovem viralizou ao criticar a canção. Foto: Yasmin Formiga/Facebook

A indigesta experiência de ouvir o funk Surubinha de Leve leva a refletir após o choque: como chegamos até aqui?. A música faz irrefutável apologia do estupro com versos "Taca a bebida, depois taca a pica e abandona na rua", numa claro ode a embebedar mulheres, abusar sexualmente e depois abandoná-las. A depreciação e objetificação da figura feminina está clara ao longo da canção, em um retrato de misoginia: “Só uma surubinha de leve com essas filha da put*" e "Pode vir sem dinheiro, mas traz uma piranha, aí!".

Mas antes de a música chegar à proporção de críticas que levou à retirada do ar das principais plataformas de streaming, o hit chegou ao primeiro lugar na lista As virais 50 do Brasil do Spotify, ultrapassando até mesmo Que tiro foi esse?, da Jojo Toddynho. No YouTube, de onde também foi banida, chegou a atingir mais de 14 milhões de visualizações, e o clipe estava previsto para ser lançado nesses dias.

Apesar do barulho, o Spotify ao excluir o conteúdo fez apenas uma nota técnica, se eximindo de responsabilidade: “O catálogo do Spotify é abastecido por centenas de milhares de gravadoras, artistas e distribuidoras em todo o mundo. Eles são devidamente avisados sobre nossas diretrizes e são responsáveis pelo conteúdo que entregam. Desta forma, informamos que contatamos a distribuidora da música 'Só surubinha de leve' a respeito do ocorrido e fomos informados que a faixa será retirada da plataforma nas próximas horas, uma vez que o tema foi trazido à nossa atenção”.

Ou seja, até a viralização das críticas ao teor ofensivo, a música seguia o caminho natural do sucesso, crescendo em número de audiência. O que serve de termômetro em relação à sociedade em que vivemos, que relativiza a cultura do estupro e não consegue ligar os pontos de que esse tipo de exacerbação dessa masculinidade violenta nos leva a números alarmantes de em média 135 estupros por dia em 2016 - um a cada 11 minutos, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública - e pela provável subnotificação das denúncias, o número real estima-se em dez vezes maior que isso.

No Brasil, um terço do brasileiros culpa a mulher em caso de estupro, e quase metade dos homens acredita que mulher “que se dá ao respeito” não é estuprada, segundo pesquisa do Datafolha. A culpabilização da vítima é o cerne da tolerância com a cultura do estupro. Não é de se admirar a quantidade de funks, bregas e outros ritmos que popularizam o estigma da novinha, a menina (majoritariamente menor de idade) que “sabe o que quer e dá mole” no país em que a maioria dos estupros envolve crianças e adolescentes. A apologia do estupro está inquestionavelmente explícita na música de MC Diguinho, mas obviamente não surge com ela.

O Brasil relativiza estupro, como se o crime hediondo só se configurasse sob a ameaça de uma arma empunhada por um tipo de psicopata em um beco escuro. Mas a cada 11 minutos, ele acontece de maneiras diversas, tal qual o cara da música que embebeda pra obter sexo sem consentimento é um estuprador. O namorado ou marido que pratica relações forçosas com sua companheira é um estuprador. O homem adulto que seduz e tem relações com menores de 14 anos é um estuprador, e pouco importa o histórico sexual da vítima.

Quando MC Diguinho tenta ironizar no Twitter: “Se minha música faz apologia ao estupro, prazer, sou o mais novo estuprador, apenas fiz a música da realidade que eu vivo e muitos brasileiros vivem. Viva a putaria”, além da arrogância e da falta de autocrítica, ele acaba fazendo um retrato real do país, que sim, esse é o comportamento de um estuprador e que é algo mais comum e corriqueiro que a gente pensa ou costuma falar sobre.

Ele não é o único, vem da mesma indústria que gerou o Biel, que era idolatrado pela postura machista até passar do limite ao assediar uma repórter. A mesma mídia que levou o MC Diguinho a ser derrubado da internet sempre abriu espaço para piadas com estupro feitas por figuras como Bolsonaro e Alexandre Frota. Rafinha Bastos, processado por fazer piada ofensiva à cantora Wanessa, continua protagonista de diversos programas de TV a cabo.

Que bom que o debate levou abaixo um conteúdo tão violento à dignidade feminina, mas quantos outros o público consome e segue o baile? Como aprofundar o enfrentamento da questão no país em que um juiz libera o ejaculador do ônibus chamando o comportamento apenas de “constrangimento?” e outro que absolveu um delegado que estuprou a neta por não bastar “a simples relutância ou negativas tímidas”? Parece que por aqui, antes de começarmos a falar sobre estupro, a gente vai ter que desenhar o que é consentimento.