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O cabelo crespo de Ludmila é um marco para a beleza negra

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O cabelo crespo de Ludmila é um marco para a beleza negra

Reprodução / Instagram

A intencionalidade comercial do projeto de encrespar a cabeleira da cantora Ludmila é clara, é verdade. Tanto, que haverá um lançamento oficial dos seu “novo penteado” a partir do dia 1º de dezembro, com fotos exclusivas da revista Cosmopolitan e patrocínio da marca de cosméticos Salon Line. Mas o projeto de mudança radical sob os holofotes, naquele estilo muito barulho pra vender produto - como a barba feita do cantor Bel Marques ou o cabelo raspado do jogador Ronaldo geraram milhões para a Gillette - não invalida a importância da repercussão do processo de transição capilar de uma celebridade como a Ludmila.

Uma artista que está no auge do mainstream possui todos os recursos e oportunidades para manter-se em um visual mais abalizado pelo mundo pop: cabelos longos e lisos, o sonho de poder de quase toda menina negra da quebrada, a tão almejada aceitação. Mas, mesmo que sob um contrato, assumir a fibra natural do cabelo é um ato de resistência e pode significar uma relevante inspiração para todas as meninas negras, principalmente de periferia, que se identificam com a Ludmila e podem ver na mais importantes revistas de moda, nos programas de TV e nos videoclipes do Youtube que o cabelo crespo também é aceito e considerado bonito.

Transição capilar é um processo árduo. Trata-se daquele momento que a pessoa que se submeteu (às vezes por períodos muito longos) ao uso de tratamentos químicos que alteram a estrutura natural do cabelo mudando a sua forma (geralmente para um resultado mais liso)  decide não aplicar mais esse recurso e esperar o crescimento do cabelos sem química.

Costuma ser um período complicado de lidar com as madeixas, que ao longo do comprimento ainda estão alisadas e com o passar do tempo vai ficando à mostra o cabelo crespo em crescimento. É um tempo meio Frankenstein de assumir duas formas distintas de molde capilar, não necessariamente harmônicas, é difícil ter corte de cabelo, penteado, chapéu, lenços, que ajude.

Além de simplesmente mostrar o antes e depois, Ludmila está fazendo um ótimo trabalho de falar sobre o assunto, compartilhar as emoções em relação à estética negra, de crescer ouvindo que seu cabelo é ruim, de passar a maior parte da sua vida odiando sua própria natureza para só então, na vida adulta, entender a importância de que assumir seu cabelo é abraçar sua negritude e parar de brigar para ser algo que lhe foi imposto a vida toda como única referência de beleza.

"Alisava meu cabelo desde os 7 anos. Quando eu era pequena, estudava em escola particular e todo mundo tinha cabelo liso. O meu era o único cabelo diferente, crespo. E eu, que queria ter o cabelo igual ao delas, ficava passando formol na cabeça", disse Lud na prévia da entrevista da Cosmopolitan.

Estou ansiosa para ver não só a lacre da nova juba da Ludmila, que certamente será poderosíssima como ela já vem mostrando aos poucos no seu perfil no Instagram. Mas para que outras minas negras sintam-se tocadas a curtir seus cabelos do jeito que a natureza os criou. Afinal, black is beautiful