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Rico Delasam fala de Padre Marcelo Rossi ao lembrar a morte de Jorge Lafond

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Rico Delasam fala de Padre Marcelo Rossi ao lembrar a morte de Jorge Lafond

Ao lado de Liniker e Mc Linn da Quebrada, o rapper Rico Delasam é uma das mais vibrantes vozes de artistas queer negros no Brasil. Sempre ativo em defesa da comunidade LGBT, principalmente numa perspectiva negra e periférica, o compositor usou as redes sociais para falar de como a homofobia afeta a vida e a saúde (mental e física) das pessoas alvo de preconceitos, lembrando os 15 anos da morte do humorista Jorge Lafond - conhecido pelo personagem Vera Verão, nos anos 90, foi o primeiro artista negro queer da Televisão Brasileira.

Uma depressão, seguida de mal estar cardíaco e culminando em insuficiência renal, levou o ator a falecer em dezembro de 2002, um mês depois da sua última aparição na TV, durante o quadro “Homens x Mulheres” no programa Domingo Legal, no SBT. Em seu instagram, Rico relaciona a vulnerabilidade da saúde de Lafond à influência das religiões no julgamento e perseguição a gays, lésbicas e transgêneros, ao ressaltar que o humorista adoeceu depois de ficar extremamente abalado por ser convidado a deixar o palco a pedido do Padre Marcelo Rossi. “Esse é o amor cristão?”, questionou o compositor em seu depoimento que replica o texto de Thiago Ketu, militante negro do coletivo Okàn Dìmó e historiador. 

Leia a íntegra do texto de Delasam:

“Há 15 anos, no dia 10 de novembro de 2002, o humorista Jorge Lafond foi convidado a participar do quadro “Homens x Mulheres” no programa Domingo Legal, no SBT. Caracterizado de Vera Verão, Lafond integrava o lado feminino da disputa e foi retirado do palco após um pedido do padre Marcelo Rossi, que se apresentaria dali a alguns minutos. Enquanto aguardava consternado nos bastidores, a produção solicitou insistentemente que ele retornasse logo após a apresentação do padre. Porém, constrangido e amargurado com a situação, ele não voltou. Lafond entrou em depressão profunda após o episódio e não saiu de casa e nem deu notícias por sete dias.

No dia 17 de novembro de 2002, uma semana depois do incidente, Lafond foi internado em estado grave, com problemas cardíacos. "Ele não teve como reagir a esta agressão e durante toda a semana ficou cabisbaixo e pensativo", disse o seu empresário, Marcelo Padilha, o que teria, acredita ele, culminado no mal-estar sentido por Lafond no domingo. Num primeiro momento, os médicos diagnosticaram uma crise hipertensiva. Depois deste dia, diversas foram suas internações no hospital, sendo a última em 28 de dezembro de 2002, quando seu problema de saúde se agravou com uma crise renal, levando-o à morte.

Esse é o amor cristão?”

Provavelmente Pe. Marcelo Rossi, que inclusive recentemente assumiu sofrer de depressão, não dimensiona que sua exigência possa ter abalado de forma tão contumaz a vida e morte de Lafond, mas sabemos o quanto a homofobia é nociva para a vida das pessoas que são costumeiramente rechaçadas socialmente e tratadas como “aberrações” pelo simplesmente fato de serem diferentes. O conservadorismo das religiões mais tradicionais e cristãs no Brasil tem se voltado a perseguir LGBTs na tentativa de tolher seus direitos. E tem colocado nos artistas como seu maior adversário.

É preciso resistir. Como diria o próprio Lafond em sua frase célebre: “Quem não nasceu para incomodar não deveria nem ter nascido”. São pessoas em maior vulnerabilidade os gays negros de periferia, onde a ausência de políticas públicas de diversidade se traduz não só nos índices alarmantes de mortes de transexuais e como na marginalidade pela falta de acesso ao mercado de trabalho. É preciso estarmos atentos para que o moralismo não acabe com vidas, nem mesmo indiretamente.