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Série sobre solidão da mulher negra em busca de financiamento

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Série sobre solidão da mulher negra em busca de financiamento

Crédito: A face negra do amor / Divulgação 

Pode parecer uma queixa recente, para algumas pessoas de pouca empatia, uma nova categoria de mimimi, mas o fato é que a realidade sociológica da solidão da mulher negra está em pauta, em debates, pesquisas e publicações. É uma dinâmica brasileira que mulheres negras sejam preteridas quando se trata de relacionamentos e constituição familiar. É tema por exemplo do livro "Virou Regra?", resultado da pesquisa de mestrado de pesquisadora Claudete Alves, da PUC, sobre "Solidão da Mulher Negra: sua subjetividade e seu preterimento pelo homem negro".

O assunto agora vai parar nas telas pela produção da websérie “A Face Negra do Amor”, projeto audiovisual que propõe falar das problemáticas raciais no amor a partir da ótica de quatro mulheres negras. O projeto, idealizado por Tatiana Tibúrcio - venceu o prêmio Moviementos Criativos em parceria com o Itaú Cultural e indicada ao prêmio Shell como melhor atriz - está em busca de financiamento coletivo na plataforma benfeitoria para ser realizado.

A série terá participações de Erika Januza, Val Perré, Tatiana Tiburcio, Rodrigo dos Santos, entre outros. No enredo, serão apresentadas as histórias de quatro mulheres negras de idade, condição social, escolaridade diferentes: um lar desfeito depois de 12 anos de uma união aparentemente feliz, uma militante negra que só se relaciona com homens da mesma etnia, uma mulher que tenta se igualar aos padrões e um casal negro.

A perspectiva de negação da subjetividade da mulher negra é uma cultura desde a época escravocrata, que a branca é adequada para o papel de esposa, a negra para o papel do sexo sem compromisso. O inconsciente coletivo há séculos reforça esses papéis, que se institucionalizaram, a exemplo das ideias de Gilberto Freyre que traçam um perfil da mulher negra hipersexualizada e disponível afetivamente, como se a miscigenação brasileira fosse consequência da libertinagem das escravas, não fruto de diversas violências e inúmeros casos de estupro.

Se você é uma mulher negra, provavelmente ao longo da sua vida já viveu alguma experiência de ter um affair que prefere ficar com você escondido, que nunca lhe apresentou a família e amigos ou mesmo nunca admitiu pra ninguém que estava ficando com você. Também deve conhecer alguma história de um cara que se dizia não estar pronto para se envolver (com uma mulher negra) e em seguida aparecer bem enlaçado com uma mulher de pele clara. É recorrente nas nossas histórias, aquelas que na adolescência são vistas apenas como boas amigas, na juventude como romances fortuitos e na idade adulta como a mulher que ficou para titia. Que país é esse que até o direito de amar parece ser um privilégio branco?