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Vidas negras e violência policial na favela. Mais um caso que não nos choca

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Vidas negras e violência policial na favela. Mais um caso que não nos choca

Jovem Negro Vivo / Campanha Anistia Internacional 

A violência urbana é uma realidade democrática no Brasil, atinge a todos e influencia como nos desenvolvemos como sociedade. Viver entre muralhas, cercas elétricas e carros de vidros fechados para a classe média, levar baculejo aleatório e assistir ao genocídio da população negra para os mais pobres. Se quase ninguém escapa, o preço mais alto da inoperância da segurança pública é pago, com as próprias vidas, pelas pessoas em maior vulnerabilidade. Amarildos, Cláudias, Ítalos e, agora, Marisas engrossam as estatísticas de vítimas da truculência estatal, assinadas pela polícia sob a tal legitimidade da lei.

Vidas negras e violência policial na favela. Mais um caso que não nos choca

Marisa de Carvalho Nóbrega / Arquivo Pessoal 

Marisa de Carvalho Nóbrega, diarista e vendedora, da Cidade de Deus - favela do Rio de Janeiro que dá nome ao filme que foi parar no Oscar- , morreu em decorrência dos ferimentos causados por uma coronhada de fuzil dada por um policial enquanto tentava defender o filho de uma abordagem cheia de abusos contra seu filho, de 17 anos, encurralado a confessar que era traficante já que cometia o crime de estar “bem vestido demais”. Isso mesmo, um rapaz negro, pobre, de favela, só poderia estar bem vestido se fosse bandido.

É assim que a gente segue naturalizando uma justiça que sem nenhum indício palpável pode abordar, agredir, prender e matar pelo simples fato que alguém parece ser bandido. E bandido no Brasil, aquele mesmo que todo mundo diz que melhor morto, aparenta ter um perfil muito óbvio: negro e pobre. O Brasil idolatrar o Capitão Nascimento, personagem de Wagner Moura em Cidade Deus, é sintomático. Uma simpatia por uma polícia que animaliza o criminoso, e na visão moralista do nosso senso comum, uma torcida pela punição, doa a quem doer.

Essa lógica só se sustenta numa perspectiva coletiva que não se indigna quando dói até em quem não merece. Cultuar a FORÇA policial é um passaporte para tolerar que casos como o de Marisa nos pareçam apenas uma consequência triste dos “ossos do ofício”. E assim as vidas negras perdidas diariamente nas periferias brasileiras são contemporizadas pelos veículos midiáticos, amanhã já não lembraremos seus nomes nem criaremos hashtags #somostodosquemmesmo?

Segundo a anistia internacional, o Brasil é o país onde mais se mata no mundo. Mais da metade dos homicídios tem como alvo jovens entre 15 e 29 anos, destes, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados. De acordo com o texto da campanha Jovem Negro Vivo, "o números alarmante em geral são "tratados com indiferença na agenda pública nacional. As consequências do preconceito e dos estereótipos negativos associados a estes jovens e aos territórios das favelas e das periferias devem ser amplamente debatidas e repudiadas". Uma mãe morreu para defender um filho acusado de estar bem vestido demais. Quem sabe um dia a gente saia da inércia e entenda que #vidasnegrasimportam