RAÇA

William Waack poderia continuar apenas calado

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William Waack poderia continuar apenas calado

Reprodução / Internet

Passaram-se meses de silêncio, interrompidos tão somente por uma declaração protocolar e uma nota oficial conjunta com a emissora em relação ao episódio do comentário racista que viralizou e levou à sua demissão da Rede Globo, quando William Waack decidiu vir a público falar realmente sobre o problema, assinando no último domingo um artigo na Folha de S. Paulo.

Depois do tanto tempo para reflexão durante o retiro que lhe foi imputado, esperava-se um pedido de desculpa mais convincente que a primeira resposta de “não se lembrar bem do ocorrido ou do que falou”, afinal, um homem abatido com sua carreira enxovalhada precisa fazer por onde reconquistar a reputação perdida. Mas William Waack conseguiu perder mais uma grande oportunidade de continuar calado e conseguiu piorar ainda mais sua imagem, agora não só como racista, mas como um grande arrogante incapaz de reconhecer os próprios erros.

O texto de Waack é praticamente um tratado, quase um guia, daquela preciosa página da internet “não sou racista, mas” que registra os comportamentos mais absurdamente discriminatórios de pessoas que já usam esta declaração, na defensiva, para destilar o próprio racismo. Utiliza todos os artifícios do racismo à brasileira: primeiro negar-se racista como 98% da população, depois acusar os incomodados de falta de humor ou capacidade de interpretação de texto e por tentar se eximir da culpa com a máxima “tenho até amigos negros”.

Seu último apelo é tentar justificar que sua “ilibada” obra é prova de sua isenção e, em seu argumento, do seu não racismo. Nada mais infeliz em tempos em que se pensa boicote a referências culturais como Kevin Space, Woody Allen e Johnny Depp, entre outros escândalos em Hollywood. Obra não é atestado de caráter, ou Lars Von Trier - mesmo antes das acusações de assédio de Bjork - não estaria vitaliciamente banido do Festival de Cannes após ser flagrado fazendo comentários antissemitas.

Dizer-se um exemplar jornalista na vida pública (novamente em sua pessoal opinião) por 48 anos não significa que nos bastidores sua personalidade não revele valores e opiniões inaceitáveis. Há muitas sombras por trás de holofotes e elas hoje estão suscetíveis a questionamentos, já se foi a era da idolatria cega.

Com a impáfia que lhe é peculiar e a nítida incapacidade de reconhecer erros - o que lhe humanizaria ao menos para que lhe fosse possível alguma compaixão -, Waack veste ainda mais a carapaça clássica do comportamento racista de branco privilegiado que não aceita críticas e trata como idiotas os grupos que costuma diminuir.

Ainda nesta oposição, não lhe parecia que ao fim de sua carreira seriam justamente os que subestima em inteligência com um texto tão mal amanhado os fariam ruim seu poder. Que racistas antes inatingíveis como ele se sintam cada vez ameaçados e passem, no mínimo, a tentar disfarçar o próprio racismo na mais profunda intimidade, porque publicamente já não são aceitáveis, e nem mesmo a grande mídia é capaz de sustentá-los diante dos nossos olhos. 

Poderia continuar calado, no limbo do ostracismo e ter uma morte pública menos horrível que esta. Se é pra tentar justificar o injustificável, que abra o verbo para se reconhecer e ao menos responsabilizar-se mesmo que não sejam genuínas suas desculpas. Entre escândalos globais, até José Mayer foi mais feliz no uso de suas relações públicas. Tentar desmerecer o clamor das redes sociais só mostra como Waack parou no tempo junto com seu preconceito.