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Entenda a guerra entre Nem e Rogério 157 pela favela da Rocinha

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Nessa quarta-feira, Rogério 157, chefe do tráfico da comunidade da Rocinha, foi preso pela Polícia do Rio de Janeiro.

Entenda a guerra entre Nem e Rogério 157 pela favela da Rocinha

O traficante é o pivô de um intenso conflito armado na segunda maior favela do país, onde habitam mais de 70 mil pessoas.

Abaixo, explicamos o que você precisa saber para entender o conflito:

A dinâmica do crime organizado no Rio

Existem três forças principais no crime organizado fluminense: as facções criminosas, as milícias e o grupo do jogo do bicho. Cada uma atua de uma forma diferente, particular. As facções criminosas disputam o poder por meio do tráfico de drogas e do roubo de carga; as milícias, formadas quase sempre por grupos paramilitares, têm o apoio de ex-policiais e ex-bombeiros, e dedicam sua força ao monopólio de gás e da TV a cabo pirata; o grupo do jogo do bicho, por sua vez, concentra sua ação no controle do jogo de apostas.

O domínio da Rocinha

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Há tempos, as facções criminosas dominam a favela da Rocinha. Dentre essas facções, há três que se destacam: a Amigos dos Amigos (ADA), o Terceiro Comando Puro (TCP) e o Comando Vermelho (CV), sempre em constante briga pelo poder.

A ADA domina a Rocinha há muitos anos. No começo de 2017, no entanto, a facção fechou uma aliança com o paulista Primeiro Comando da Capital, o PCC, o que causou um racha interno. De um lado, apoiadores de Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem (foto acima); do outro, Rogério Avelino, o 157, e seu grupo. Ambos, nesse momento, ainda pertencentes ao grupo Amigos dos Amigos.

Nem comandava a Rocinha até ser preso, em 2011. A partir daí, Rogério 157, ex-segurança privado de Nem, passou a ser o principal líder da região. No entanto, 157 passou a administrar a favela de forma distinta à anterior, com excessivas cobranças de taxa de gás - em postura semelhante à atuação das milícias -, o que desagradou o ex-líder da Rocinha. Desde então, Nem e seus comparsas seguiram em uma incessante tentativa de destituir Rogério.

Em agosto, diretamente da prisão, o ex-líder da Rocinha deu a ordem para que Rogério deixasse o morro. Ele não só ignorou, como mandou assassinar três comparsas de seu rival, o que deixou claro a mensagem de que ele não iria renunciar tão facilmente ao poder.

No mês seguinte, Nem decidiu atacar com força máxima. Traficantes da ADA da Rocinha e de outros morros se uniram para invadir a favela e expulsar Rogério 157. A partir desse momento, Rogério 157 trocou de lado e passou a fazer parte do Comando Vermelho, que ofereceu abrigo ao seu grupo.

O resultado dessa disputa fratricida impactou diretamente a população da Rocinha, que se viu em meio a diárias trocas de tiros. Nesse período de dois meses, houve pelo menos nove mortes.

Forças Armadas do Rio de Janeiro

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O Estado, antes ausente, passou a intervir na situação. Cerca de 1100 homens – 550 policiais militares e outros 550 das forças armadas – entraram na Rocinha com o objetivo de apaziguar o conflito. Na tentativa de prender os traficantes responsáveis pela disputa do poder, os policiais fizeram um cerco na favela, sem deixar que ninguém entrasse ou saísse de lá. O resultado foi negativo: com menor conhecimento geográfico do local, as forças estatais perderam o embate com os traficantes de ambos os lados. Mais mortes ocorreram.

A vida dos traficantes

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Por envolver diretamente o tráfico de drogas, o crime organizado no Rio de Janeiro envolve cifras inimagináveis. Os traficantes de maior escalão na hierarquia das facções vivem vidas regadas a luxo e ostentação.

Abaixo, um vídeo feito pela polícia do Rio de Janeiro mostra como era a casa de Rogério 157, na Zona Sul do Rio de Janeiro:

A prisão de Rogério 157

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Rogério 157, ciente de que era alvo máximo da polícia do Rio de Janeiro, passou a se disfarçar. Retirou tatuagens, escondeu cicatrizes e pintou o cabelo, com vista a sair do radar público. Passou a perambular por diversas favelas comandadas pelo Comando Vermelho - a nova facção da qual ele fazia parte -, mas, na última quarta-feira, foi enfim encontrado pela Polícia do Rio de Janeiro, em uma ação conjunta da Policia Civil, Polícia Militar e das Forças Armadas na favela de Arará, onde ele se escondia.

Chegou-se a oferecer 50 mil reais para quem obtivesse informações valiosas sobre seu paradeiro. Rogério 157 não resistiu à prisão e apareceu, inclusive, sorridente em selfies com os policiais (haja escárnio!).

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A atual situação

Com Nem e Rogério 157 presos, a administração da Rocinha fica agora sob um enorme ponto de interrogação. O crime organizado, é claro, continuará existindo. Qualquer declaração pública que afirme o contrário, dizendo que, agora, a situação está apaziguada, é muito mais uma tentativa de acalmar a população do que a fiel realidade.

Os conflitos entre os Amigos dos Amigos e o Comando Vermelho tendem a se intensificar. Com a prisão de Rogério 157, agora do Comando Vermelho, vale ressaltar, a ADA sai na frente. O futuro é incerto e perigoso.