SAÚDE

O que é a medicina psicodélica e por que ela vai mudar sua visão sobre as drogas

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Nem toda substância presente em drogas recreativas faz mal à saúde

O que é a medicina psicodélica e por que ela vai mudar sua visão sobre as drogas

Você já deve ter visto esse cenário em algum filme. Depois de meses de combate intenso em alguma guerra, um soldado volta pra casa e não consegue ter uma vida normal. A qualquer ação minimamente mais brusca, uma reação ainda mais forte, como se ele ainda estivesse em um ambiente de conflito. 

O exemplo descrito acima configura-se como "transtorno de estresse pós-traumático" e, dentre outros tantos casos, foi o que foi vivido pelo sargento norte-americano Tony Macie, que retornou para sua terra natal depois de passar 15 meses em guerra no Iraque.

Para combater os graves problemas de estresse, Macie iniciou um tratamento comum, por meio de medicamentos que combatiam a ansiedade, com o apoio simultâneo de sessões de psicoterapias. Nada deu certo. Sua interação social com a família e amigos não era a mesma, até que seu quadro evoluiu para o estágio do que foi denominado como "extrema resistência ao tratamento".

Foi então que ele soube de um estudo desenvolvido pela Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies (MAPS), um grupo voltado ao financiamento de pesquisas sobre a chamada ciência psicodélica.

A organização aposta no uso de medicamentos compostos por MDMA, que é a principal substância presente nos comprimidos de ecstasy. Ou seja: trata-se do uso de um composto estrutural de uma droga sintética para combater casos que envolvam traumas passados.

Pacientes que passam por tal situação podem conviver com o medo durante anos, podendo evoluir para quadros de forte isolamento social, depressão e até suicídio. A partir dos estudos com MDMA, no entanto, os pesquisadores descobriram que, sob efeito da droga, é possível reviver tais traumas sem sentir medo ou ansiedade.

Foi o que Tony Macie fez. E depois de poucos meses de tratamento, ele se sentiu curado. "O MDMA me fez sentir compaixão e amor, e isso tornou a terapia altamente eficaz. Eu diria que estou curado porque estou vivo. Não evito as pessoas e procuro me distanciar do ódio e das emoções negativas", afirmou Macie em depoimento gravado em vídeo (assista a íntegra abaixo):

Como o MDMA funciona no cérebro

O MDMA diminui a atividade na amígdala, região central para o processamento do medo que está em estágio de superativação em pessoas que possuem traumas intensos. A substância também aumenta a atividade no córtex frontal, que é o órgão responsável pelo raciocínio e pela cognição. Além disso, o MDMA reduz a ansiedade ao aumentar a confiança e a empatia.

Antidepressivo vs MDMA

Mas afinal, qual a real diferença entre o tratamento feito por antidepressivos e o proposto pelo uso de MDMA? Por que abandonar o antidepressivo e utilizar o polêmico composto?

Segundo pesquisadores, o antidepressivo apenas alivia seu sofrimento relacionado a certos problemas, de modo que você consiga viver sua vida driblando o evento passado que causou o trauma. Ou seja, por mais que você consiga seguir o ritmo natural da vida, o problema ainda irá existir e pode voltar a aparecer com intensidade caso haja interrupção no uso do medicamento.

O tratamento a partir de MDMA, por sua vez, propõe que o paciente sinta mais os problemas decorrentes do trauma, fazendo com que se enfrente as questões, revivendo tal situação sob um ponto de vista mais amplo. A longo prazo, e aliados com sessões de terapia, o paciente se sente apto a reconhecer que houve um trauma em sua vida, mas sem permitir que isso interfira em seu cotidiano.

A polêmica da proibição

A pergunta que fica, portanto: por que proibir algo que notoriamente pode fazer bem às pessoas? 

Acima de tudo, trata-se de uma questão que envolve um preconceito. Preconceito contra drogas, preconceito ao uso recreativo, enfim: preconceito ao diferente. 

Pesquisadores como o brasileiro Eduardo Schenberg são categóricos ao afirmar que o uso recreativo de qualquer droga deve ser um direito fundamental que vai de acordo com a consciência de cada um. Segundo ele, há, hoje, um entendimento de que "se algo é usado recreativamente, será viciante, e, por ser viciante, não pode, sob hipótese alguma, ter um uso medicinal". 

Os psicodélicos, como é defendem os pesquisadores do MDMA, podem ser abusados, mas dificilmente geram dependência. Isso porque a experiência no uso é muito longa e intensa, o que faz com que as pessoas não sintam a necessidade de prolongar ou aumentar o efeito - justamente o que ocorre com outras drogas, como cocaína e o cigarro.

Para se refletir!