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Lobo em pele de cordeiro

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Perfil produzido em grupo para a matéria Português para Comunicação (Os parágrafos escritos por mim foram os quatro primeiros)

São as pequenas coisas, os pequenos detalhes, gestos, que "vire e mexe" nos mostram a grandiosidade da vida que vivemos, grandiosidade essa que passa despercebida em frente à olhos desatentos. É preciso simplesmente, parar e apreciá-las na rapidez do segundo, dos alguns minutos que duram. Após esse curto espaço de tempo, quando paramos para nos dar conta do que vimos e ouvimos o que vimos e ouvimos já passou. E não há como não ser assim, a vida é dessa forma, fluente como um rio, instantânea como o arrepio da pele ao sentir o frio.

Parece que nesses dias em que acordar nada mais é do que algo necessário é que temos tendência à nos depararmos de forma mais marcante com a simplicidade extraordinária desses momentos. Não me lembro bem mas aquele sábado ensolarado e aparentemente comum parecia ser mais um desses dias. Conhecer uma senhora da qual nada sabia, não trazia tanta animação, afinal, cruzamos com desconhecidos o tempo todo, não é mesmo?

Encontramo-nos em um minúsculo escritório do 3º andar de um prédio que me foge o nome, no centro de Maceió. Adentrei a porta e vi alguém com um sorriso contagiante, as marcas no rosto eram uma lembrança dos anos de tristeza e dor que ela não parecia ter vivido, mas não escondia de forma alguma, pois aquela era uma recordação de sua superação.

Ao começar a contar sua história pude sentir que seus olhos voltaram ao passado, recordando todas as vezes que tentou dominar a própria vontade, o próprio desejo pelo vício que quase acabou com sua vida, o álcool. Lembrou-se da luta diária que trava todos os dias consigo mesma para não se entregar as armas do grande vilão da história. O mal sem dúvidas é persistente.

Ainda na infância uma grande perda, e numa brincadeira dos seus irmãos, pagou a conta, perdeu a metade do dedo indicador da mão direita, os irmãos passaram correndo e derrubaram a rede onde estava, e também um móvel que caiu sobre o seu dedo esmagando-o. Momentos de dor como esse iria viver mais vezes, mas também seria a causa de alguns deles para familiares e amigos.

Amazonense de Manaus, com tripulante de navios foi aos dois anos de idade foi com sua família morar em Belém do Pará, lá viveram por um tempo, até seu pai encantado com a cidade de Santos, resolveu mudar-se para o litoral paulista. Lá, nos primeiros dias de aula, ela e seu irmão sofreram bullying dos colegas, por serem amazonenses e terem os cabelos bem lisos e a pele escura, foram taxados de índios, e as crianças corriam com medo que eles lhes mordessem. A mãe deles teve de ir à escola explicar que não era nada do que as crianças estavam pensando, eles não iriam morder ninguém, pelo menos sem motivos não.

Aos 14 anos de idade Aury Lobo já trabalhava, aos 16 anos estava empregada na exportação de café no porto de Santos, dois anos depois se tornou funcionária do estado de São Paulo e continuava trabalhando no porto, ganhando muito bem. Porém, deixou o emprego para estudar, tinha a visão de que a educação traria para ela muitas coisas boas, mesmo com alguns pensamentos de que estaria fazendo uma grande loucura, pois recebia muito bem.

Começou, mas depois parou devido a um problema de saúde, cursar matemática. Aos 21 anos, depois de algumas tentativas passou no concurso e começou a trabalhar na TELESP, onde ficou até se aposentar, e é mais ou menos nessa época que ela começa a atuar, no que ela mesma define como o palco negro de sua vida. E nessa novela que é a vida da Aury, o ato principal é a sua passagem obscura pelo mundo pervertido do álcool.

Começou beber aos 19 anos tomando um chopp no barzinho em final de semana pra se divertir, a rotina de tomar o chopp já não trazia a falsa felicidade de antes, e o chopp se transformou em cerveja, e assim como se fosse subindo um prédio pelo elevador, ela chegou à cobertura, bebia todos os dias, ia trabalhar bêbada, vomitava no serviço, e foi afastada do emprego para tratamento. Aos poucos foi perdendo o respeito e a vontade de ajudar de todos que a rodeavam.

Esse período foi escasso de sentimento, sentiu abandono, a família cansou de vê-la sofrer e parou de se importar. Foi nesse momento que decidiu pular de cima do prédio, largou familiares, amigos e tudo que tinha algum valor na sua vida, e decidiu se viver exclusivamente para o álcool, ela andava suja, jogada pelas calçadas, e mesmo recebendo o seu salario, chegou a roubar. Essa vida de miséria que o álcool entregou como recompensa de sua rendição perante ele, foi deprimente e mesmo tentando resistir e manter a impressão de mulher durona, a companheira Aury, leva o dedo aos olhos para deter possíveis lagrimas que ousarem cair, é o momento de maior emoção do período de tempo que passamos naquele escritório.

Aury falou dos aniversários que passou quando bebia, passava o dia todo e ninguém ligava para lhe dar pelo menos parabéns. A bebida era sua única companhia, era a afogadora de magoas, que a própria bebida havia criado. Viveu essa vida por 15 anos, digo essa porque a vida da Aury é tão cheia de acontecimentos, daria para dividir em atos e transformar numa peça teatral, esta seria consequentemente recheada de um sucesso profissional inegável, relações pessoais muito estreitas e muita superação.

A superação dessa fase e a forma como ela lida com isso é o mais encantador dessa história. E essa volta por cima passa pelos alcoólicos anônimos, organização que conheceu quando uma vez viu seu primo, que também era alcoólatra todo bem vestido, om uma boa aparência, e ela bêbada o questionou com uma piada se ele estava louco, e a razão por está vestido daquele jeito. Ele respondeu que estava frequentando os alcoólicos anônimos. Essa foi uma ponte pra que ela mais tarde fosse procurar a organização, procurando alguém que colocasse um colchão no chão para amortecer sua queda do imenso prédio de onde saltara.

Encontrou no chão não um colchão, mas um trampolim, que amorteceu a queda e deu o impulso necessário para retomar a vida, as relações com os familiares foi reestabelecida, mas como uma louça que é quebrada e depois colada nunca será mais a mesma, a ligação com a família perdeu força. Aury se mudou para Maceió há 8 anos, pra viver a vida, já que os paulistas tem como nome trabalho e sobrenome hora extra, o que ela já não queria mais pra sua vida. Hoje vive em função de posicionar trampolins por ai, para amortecer a queda de pessoas como ela e impulsionar uma volta por cima como à dela.