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Brasil entrega aos EUA a 3ª colocação dentre os países com mais vítimas de trânsito

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Brasil entrega aos EUA a 3ª colocação dentre os países com mais vítimas de trânsito

No último ano, houve uma pequena alteração na parte de cima do ranking de países que mais matam no trânsito mundial. Por conta de dois anos de melhora nos dados brasileiros acompanhados de um movimento inverso nos registros dos Estados Unidos, o Brasil passou para os EUA o terceiro lugar dentre os países que mais vidas perdem anualmente por conta de acidentes de trânsito.

O ranking continua sendo liderado por China (260 mil mortes por ano) e Índia (207 mil), seguidos agora de estados unidos (40,2 mil), Brasil (33,5 mil) e Rússia (27 mil) 1 . A Organização Mundial da Saúde (OMS) ainda não atualizou os dados de todos os países, mas é provável que Indonésia (aproximadamente 38 mil) e Nigéria (cerca de 35 mil mortes) também integrem o sinistro grupo dos países onde os acidentes de trânsito são uma epidemia.

Em números totais, o Brasil conseguiu reduzir o número de vítimas de trânsito em mais de 25% entre 2012 e 2016. Esse dado demonstra uma melhora significativa em um dos piores problemas do Brasil, após mais de uma década de aumentos quase constantes. O ano de 2012 foi o mais mortal entre todos de nossa história, é verdade, mas marcou também o ápice de uma curva de melhora que começa a nos aproximar aos números do início do século. No ano passado, morreram no país cerca de 33,5 mil pessoas, contra aproximadamente 29 mil, em 2000.

Em sentido contrário, a evolução das vítimas de acidentes de trânsito nos Estados Unidos tem apresentado uma piora significativa. Nos últimos dois anos, a quantidade total de vítimas de acidentes de trânsito cresceu mais de 23% e fez com que os EUA superassem o Brasil em números absolutos. O resultado: em 2016 morreram mais pessoas nos EUA que no Brasil, em decorrência de acidentes de trânsito. Tal registro não acontecia desde 2007.

Fonte: DATASUS e OMS.
Fonte: DATASUS e OMS.

Isso quer dizer que o trânsito norte-americano é pior que o brasileiro? Não – ainda estamos longe dessa realidade.

Ao analisar dados como esses, devemos levar em consideração que a população norte americana é 55% maior que a brasileira e que há praticamente 3 vezes mais veículos rodando nos EUA, se comparados aos 90 milhões que rodaram no Brasil em 2015. Quando levamos as proporções em consideração, os EUA ainda seguem bem à frente do Brasil. Lá o número de vítimas de trânsito para cada 100 mil habitantes do país foi de 12,44, em 2015. No Brasil, esse número é de 18,76 – um valor 33% maior em vantagem para os nossos colegas do hemisfério norte. Ambos seguem longe dos 4 ou 5 vitimados anualmente (para cada 100 mil habitantes) registrados em Israel, na Suíça, na Holanda ou no Reino Unido, por exemplo.

Infraestrutura e comparações proporcionais

Poderíamos argumentar que os países do hemisfério norte possuem investimentos muito maiores que o Brasil e que é a má qualidade da infraestrutura a causa dos elevados índices de fatalidades no trânsito registrada no Brasil. Contudo, no Brasil e nos Estados Unidos, não houve grandes mudanças em investimento em infraestrutura nos últimos 16 anos. E, como fica demonstrado pela curva do gráfico anterior, houve uma intensa variação no número de acidentes nesse mesmo período. A infraestrutura, afirmam especialistas, é determinante para a média de acidentes com o passar dos anos. Mas não explica porque as coisas mudam tanto de uma década para a outra. Para entender melhor esse cenário, precisamos adicionar mais alguns dados à análise.

Dois indicadores que pode ajudar a descrever a diminuição e o aumento recente no número de vítimas de trânsito no Brasil e nos EUA, respectivamente: vítimas por 100 mil habitantes e vítimas por 100 mil veículos:

Observe que, no gráfico que considera a quantidade de habitantes no país, a distância entre os números apresentados no Brasil e nos Estados Unidos tem aumentado um pouco, desde 2006. Isso quer dizer que, embora os EUA tenham piorado seus números absolutos no período, quando comparados ao Brasil, se levarmos em conta a população de cada país perceberemos que os EUA têm conseguido se manter em ligeira melhora, enquanto o Brasil vem piorando um pouco. Em números totais, diminuímos a quantidade de acidentes. Em números proporcionais ao tamanho da população, nem tanto.

Fonte: DENATRAN, U.S. Bureau of Transportation Statistics, DATASUS e OMS.
Fonte: DENATRAN, U.S. Bureau of Transportation Statistics, DATASUS e OMS.

Já com relação ao número total de veículos, proporcionalmente, o Brasil tem feito um trabalho bem melhor. Enquanto os EUA têm se mantido constantes, na faixa dos 20 mortos anuais para cada 100 mil veículos rodando no país, o Brasil tem conseguido reduzir drasticamente a proporção entre o número de vítimas e de veículos em operação. A frota total dos Estados Unidos saiu de 225,8 milhões de veículos em 2000 para 263,6 milhões em 2015, um aumento de 16,7%. Nesse mesmo período, a frota brasileira praticamente triplicou, saindo de 29,7 milhões para 90,6 milhões.

Ou seja, embora os EUA tenham números de vítimas fatais parecidos com os nossos, a frota circulante no país da América do Norte é quase três vezes maior. Isso coloca os americanos em vantagem, novamente. A boa notícia é que temos conseguido aumentar a nossa frota sem que os acidentes cresçam na mesma proporção.

Fonte: DENATRAN, U.S. Bureau of Transportation Statistics, DATASUS e OMS.
Fonte: DENATRAN, U.S. Bureau of Transportation Statistics, DATASUS e OMS.

A epidemia das motocicletas

Se o Brasil tem conseguido aumentar a frota sem criar novos problemas para o número total de acidentes, o que nos impede de chegar a níveis civilizados de fatalidades no trânsito? Entrar no universo das motocicletas pode ajudar a explicar por que os EUA têm feito um trabalho um pouco diferente do nosso com relação ao número de acidentes de trânsito. Mais do que isso, pode ajudar a entender um cenário que será decisivo para a redução do número de vítimas no Brasil, nos próximos anos.

Um motociclista brasileiro tem 4,3 vezes mais chance de morrer do que o seu colega dos Estados Unidos.

No gráfico abaixo, você percebe que as motocicletas representam algo em torno de 3% do total de veículos rodando nos EUA e que têm respondido por cerca de 13,5% do total de vítimas de acidentes de trânsito a cada ano. O número de mortos por acidente de motocicleta é atualmente de 1,35 para cada 100 mil norte-americanos vivendo no país (dados de 2014).

Fonte: U.S. Bureau of Transportation Statistics
Fonte: U.S. Bureau of Transportation Statistics

E no Brasil, será que o cenário é parecido? As motos no Brasil representam algo em torno de 22% do total de veículos em circulação e foram responsáveis por 36,3% dos óbitos no trânsito no ano passado. O número de mortos por acidente de motocicleta é atualmente de 5,86 para cada 100 mil habitantes (dados de 2016). Ou seja, um motociclista brasileiro tem 4,3 vezes mais chance de morrer do que o seu colega dos Estados Unidos.

São as mortes de motociclistas o principal entrave para a redução do número de acidentes no Brasil. De 2010 para cá, nosso país conseguiu evitar, em média, 7,8 mil óbitos no trânsito por ano. No entanto, praticamente todo esse avanço aconteceu nas categorias de automóveis, ônibus, pedestres e caminhões. As motocicletas evoluíram em sentido contrário e mataram 11,8% mais no ano passado, se comparadas ao ano de 2010.

Se conseguíssemos eliminar do mapa os acidentes com motos, o Brasil chegaria a um índice de 10,5 mortos no trânsito para cada 100 mil habitantes. Somente então poderíamos comemorar a comparação com os dados dos EUA (10,9 vítimas para cada 100 mil habitantes), por exemplo. Antes de resolver os problemas com os veículos de duas rodas, contudo, dificilmente conseguiremos chegar a esse cenário mais animador.

Texto original de Pedro Conte para a revista do Instituto Parar.