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O Vale do Silício não me representa

Author

.Flavio Tavares.

O Vale do Silício não me representa

Tempo é vida, concorda? O que marca a passagem do tempo não são as horas e sim o que você fez para viver esse tempo. Já dizia Einstein: “o tempo é relativo” e, por isso, não pode ser o mesmo para todo mundo. Outro gênio que estou tendo o imenso prazer de conviver, meu querido amigo Hans Donner, também concorda: ele criou um relógio sem ponteiros, em que cada um é livre para viver seu tempo de acordo com o próprio ritmo.

Se tempo é vida, o que fazemos com o nosso tempo é muito precioso. Tem inúmeras coisas que não conseguimos controlar: quanto tempo teremos na Terra e o que o tempo futuro - ou a vida futura - nos reserva. Mas tem tantas outras coisas que só depende de nós… e dedicar seu tempo para alguém ou alguma coisa é uma escolha cuidadosa, porque doar seu tempo é doar a sua vida.

E, quando o assunto é trabalho, mundo corporativo, business, ou qualquer outro termo que você prefira usar, o cuidado deve ser dobrado, triplicado, multiplicado! Se juntar as horas que você passa na empresa, mais o tempo de deslocamento entre casa e trabalho, mais as horas extras, mais aquele happy hour da firma em que, vamos combinar, só se fala de trabalho, mais as ligações atendidas, os e-mails respondidos, os áudios do Whatsapp (tudo fora de hora, ou estou exagerando?), você vive para trabalhar. E, agora sim, eu chego no ponto central desse texto: o Vale do Silício não me representa!

Calma, vou explicar. Vivenciei quatro dias de Vale na última semana de abril e, a cada nova experiência, minha cabeça fervilhava de ideias ao mesmo tempo que meu coração se enchia de uma certa ansiedade negativa. Sim, o ambiente tem um encanto surreal: inspirador, com projetos super disruptivos, com pessoas desprovidas de preconceitos e dispostas a mudar o mundo pra melhor. Mas, eu vi coisas nas entrelinhas que estão muito distantes do novo mundo que imagino para o meus filhos, Rique e Matteo, para os seus filhos e para toda nova geração que vem aí.

Para mim, não faz sentido viver para trabalhar se o propósito do trabalho for ganhar muito dinheiro, ser adorado por um chefe, ser bem sucedido ou criar uma grande inovação. Falo isso de todo meu coração. Não é pra isso que serve o trabalho. Eu gosto muito daquela frase que roda por aí dizendo: “faça o que você ama todos os dias e nunca terá que trabalhar um dia sequer”. É isso! Eu sempre digo que a alma do negócio é a própria alma. Precisa ser tudo uma coisa só: família, trabalho, amigos, saúde, felicidade, amor. Tudo isso é vida, e é pra isso que quero dedicar meu tempo.

O que vivenciei no Vale do Silício é que esse é o discurso, mas o verdadeiro propósito é vender seu projeto por 1 bilhão. Lá, as empresas são cools e tem até máquina de lavar ao lado da sua estação de trabalho, mas o propósito de tanto conforto é você passar 16 horas do seu dia criando coisas extraordinárias para que o projeto não valha mais 1 bilhão, e sim 10.

Ficou evidente para mim que o clima do Vale gira em torno de 3 objetivos: serem deuses, ou seja, criar coisas que vão além da capacidade humana a qualquer custo; serem eternos, ou seja, perder um tempo precioso com o objetivo de ganhar mais tempo (que sentido faz isso, não é?); e, não menos importante para eles, alcançarem a todo custo a felicidade, como se ela fosse o fim (e não o meio).

Nos meus poucos dias de imersão, percebi que é humanamente impossível trabalhar no Vale do Silício e cuidar de uma casa, ser um marido dedicado e um pai presente. É bem óbvio que se trata de uma escolha. Outro incômodo forte que senti foi o excesso de glamourização na região (e, vamos combinar, glamour está longe de ser um valor importante para o mundo). Em vez de enxergar a cidade dos Jetsons, o que fiz foi ver um trânsito altamente caótico, poucas opções de modais alternativos, deslocamentos em horários de pico desumanos, tudo longe de ser uma “cidade” inteligente.

Tive essa percepção em minha breve passagem por lá e voltei pensando que não era possível que só eu achasse isso. E não era mesmo. Me deparei com um artigo (muito bom por sinal) da Preethi Kasireddy, engenheira de blockchain que depois de 6 anos no Vale do Silício tinha decidido que iria deixá-lo. No texto, ela destaca diversas razões que a incentivaram a fazer essa escolha, entre elas, que o lugar mais inovador do mundo parece ter sido tomado por uma onda de similaridade.

Não há diversidade no Vale. E, aqui, não estamos falando de nacionalidade ou de gênero, mas sim de pensamento. Todos parecem contar a mesma história, ter os mesmos sonhos e objetivos. É o que eles chamam de “groupthink”, pensamento de grupo. Isso quer dizer que as mentes mais brilhantes do planeta são, na verdade, uma massa de ideias e ideais. Como ela mesmo cita no artigo: “Silicon Valley is paradoxically a predictable place founded on the idea of being unpredictable” (“O Vale do Silício é paradoxalmente um lugar previsível fundado na ideia de ser imprevisível”).

Entenda, eu admiro muito projetos e pessoas que trabalham para mudar o mundo. Afinal, são essas inovações e essas tecnologias que estão resgatando conceitos de cooperativismo, compartilhamento e comunidade que eu tanto admiro e tanto quero para os meus filhos. Mas, antes de mudar o mundo, não esqueça que você é o mundo de alguém. Que fazer mais e melhor para as pessoas que estão próximas a você é o primeiro passo rumo ao novo mundo. E que você pode construir o lado positivo do Vale do Silício dentro das suas atividades, dentro da sua empresa, dentro do seus projetos, dentro do seu coração.

O Vale não é o único lugar onde as coisas acontecem. Não é o único reduto das mentes mais brilhantes do planeta. Pelo contrário, você pode mudar o mundo de onde estiver. Pode ser quem você quiser de onde quiser. Nem tudo que conta pode ser contado. E nem tudo que é contado realmente conta. Não viva sua vida correndo atrás do sonho de alguém, não dedique seu tempo (vida) para propósitos que não sejam essencialmente os seus. Não confunda suas prioridades com seu propósito de vida: prioridade muda, tem prazo de validade, o propósito é eterno e dá rumo às suas escolhas. Não viva uma vida mirando no Amanhã. Lembre-se: a felicidade está na jornada e não no destino final. Trabalhe, ame, divirta-se, seja saudável, seja feliz!

É para essa unidade que eu vivo. É isso que me representa!