Bergkamp, entre a mecânica e a mágica

Bergkamp, entre a mecânica e a mágica

Ivan Kano 1 year ago

21Holanda22país baixo23Ruud Gullit24van Basten25Frank Rijkaard26expressão numérica27estudos sociais28o lábaro que ostentas estrelado29

Então, a primeira vez que vi aqueles botões convertidos em jogadores foi, na verdade, meio decepcionante. Eu tinha nove anos, eles estavam de branco (decepção), Rijkaard era um veterano, van Basten e Gullit já nem jogavam mais de laranja (decepção) – o primeiro por causa do joelho, o segundo por conta da personalidade –,  e do jogo em si o que ficou foi mesmo o gol do Branco, aquele em que, mandando calar a boca, ele nos fez gritar pelos corredores da casa porque estávamos na semifinal da Copa Mundo e a puta que pariu é tetra.

Passaram quatro anos para que eu visse os homens de laranja novamente em campo. O futebol internacional era, na época, o pouco que se via aos domingos no saudoso Show do Esporte, e me lembro de ter pensado – eu tinha, então, treze anos – que aquele Holanda e  Argentina, quartas de final da Copa de 98, foi o melhor jogo de futebol a que eu já havia assistido na vida. Meu time já me tinha feito sorrir e chorar (mais isto do que aquilo, para ser franco); tinha visto, a contragosto, o São Paulo do Telê vencer Milan e Barcelona em anos seguidos; testemunhado, a contragosto, o Palmeiras dos cem gols em um Campeonato Paulista, mas nunca tinha ficado tão impressionado com um jogo de futebol que não envolvesse, direta ou indiretamente, o meu time. Boa parte dessa impressão – tudo bem, deve ter acontecido muita coisa ainda mais incrível no futebol dos 90, mas este texto é uma memória, não uma lista – se deve ao último gol daquele jogo. 

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Muita coisa, imagino, contribuiu para que esse gol ficasse na minha memória, para além do que é óbvio no lance. A importância do tento, é claro, quartas-de-final, últimos minutos de jogo, etc. Mas a verdade é que tudo naquela Copa seria marcante para mim. A combinação entre ser um adolescente louco por futebol e não ter nenhuma aptidão para jogar bola faz de uma Copa do Mundo o evento mais importante da sua vida. Completei o álbum da Copa antes de ela começar e, graças à assinatura da Placar, sabia mais ou menos a escalação e as expectativas de cada país no campeonato – o que, aliás, me fez apostar na vitória da Nigéria contra a Espanha na primeira rodada e ganhar um dinheiro do meu avô por conta disso: um 3-2 sensacional e lucrativo. Então, quando Bergkamp fez aquilo, eu não lembrava de ter visto ninguém fazer nada parecido: chamei meu avô para ver o gol passando no JN porque eu queria que ele visse aquilo, porque eu não sabia explicar o que tinha acontecido. O encanto às vezes é isso, essa falta de vocabulário.

No fim, o Brasil venceu a própria Holanda na semifinal, mas perdeu a Copa em circunstâncias menos obscuras do que gostaríamos de aceitar, e no meio daquele clima de decepção e a monótona caça aos culpados – o sete-a-um era ainda uma ficção científica – eu levei uma memória improvável, de um branquelo de camisa laranja enterrando o sonho argentino com a classe e a tranquilidade  de quem vai a um café em Buenos Aires.

Como Bergkamp não jogava na Itália nem na Espanha naquela época, não ficávamos sabendo o que aquele cara fazia nas longas férias entre um Mundial e outro. Muito tempo depois, numa daquelas maratonas de vídeos no Youtube em que a gente não consegue explicar como um bebê experimentando limão se transforma em um remix em autotune da Luisa Marilac tomando bons drink na Europa Espanha, eu encontrei um vídeo com três gols do holandês num mesmo jogo contra o Leicester. Todos bem bonitos. O terceiro, no entanto, foi um déjà-vu:

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Há alguns meses, um gol do Bergkamp, mais impressionante que estes dois, foi considerado o mais bonito da história da Premier League. Mas aí, infelizmente, em 2002 eu já não era um garoto. Não se pode brigar contra os efeitos da adolescência sobre a memória.

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