ESPORTES

Pé direito, anjo torto

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Para o Otavio Meloni, e sob sua encomenda.

Dia desses, conversando sobre jornalismo de esportes com o Gustavo Listo, o último botafoguense vivo, ele argumentou que o hábito da derrota era fundamental para escrever sobre futebol, talvez – e aí eu acrescento – para evitar que o cronista se limite ao conforto de endossar a narrativa dos vencedores, assumindo aquele tom chapa-branca que, embora empobreça os textos, enriquece os autores e, feitas as contas dos fins de mês, os fins justificam os meios e aparentemente é isso que importa. Ele me disse também que, como sou corintiano, me faltava esse hábito, e isso – devo concluir – reduziria meu horizonte no campo da crônica esportiva. Uma pena, realmente.

Apesar dessa introdução aparentemente rancorosa, este texto não é uma réplica ao Gustavo, com quem, aliás, eu concordo integralmente, sobretudo com a parte das previsões quanto ao meu futuro profissional. O que eu queria entender é o seguinte: como um clube que forjou sua identidade no sofrimento causado por uma espera de vinte e três anos, encerrada por um Basílio libertador, pode não cultivar o hábito sagrado da derrota? Como um clube que arranca seu primeiro título nacional oito décadas depois de sua fundação numa bola dividida de carrinho permitiu que sua torcida o chamasse, com uma frequência constrangedora, de Todo-Poderoso? Quando foi que "o clube mais brasileiro" se tornou atrativo para alguém como Ronaldo, talvez o primeiro jogador de futebol a entender sua dimensão como um código de barras global? Em resumo, por que capricho da História uma agremiação de raiz operária se converteu, como diriam vocês, nessa nutella toda?

Pé direito, anjo torto

Se você não é corintiano, vai dizer que tudo se explica por um conluio que mistura Globo, CBF, Edilson Pereira de Carvalho e mais um continente à sua escolha. Se é corintiano, você sabe que o Corinthians é uma religião e que, portanto, há qualquer coisa de predestinação na grandeza do clube mesmo quando não havia o que comemorar, que o time não tem uma torcida, mas que a torcida, sim, é que tem um time. Tudo depende de escolher um lado da retórica e seguir nele, sem maiores dramas existenciais. Eu mesmo, que já vi Ricardinho classificar meu time à final do Campeonato Paulista com um chute de fora da área que parecia uma tacada de sinuca, não posso afirmar com certeza que Deus não esteja envolvido na equação que descreve a trajetória daquela bola. Mas, por outro lado, veja bem, se eu não confio sequer em mim mesmo, vou por a mão no fogo por dirigente de futebol?

Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno, mas inevitavelmente místico, eu arriscaria um outro ponto de virada na história corintiana. Os anos de 1977 e 1990 serão sempre messiânicos: dois marcos fundamentais, sem dúvida, mas que mantiveram intacto o RG imaginário do torcedor, dois hiatos recompensadores em uma jornada de aceitação das nossas agonias como a parte que nos coube do destino futebolístico. Meu primeiro pôster do Corinthians na parede da infância continha a legenda "Campeão ou não, sempre Timão", frase da mesma escola literária do "Não vivemos de títulos, vivemos de Corinthians", bobagens que se propagaram porque, como sempre, é preciso dar sentido à dor para poder lidar com ela. O ponto de virada, penso, é um pouco mais simples, e atende pelo nome de Marcelo Pereira Surcin.

Pé direito, anjo torto

Talvez marcado pelo pênalti perdido numa final de Supercopa da Libertadores contra o São Paulo em 1993 – um jogo que, comparando com o futebol que se pratica hoje, me desperta mais ou menos a mesma nostalgia que assaltava meu avô ao falar da Copa de 70 –, Marcelinho chega ao Corinthians tentando provar que os dirigentes do Flamengo estavam errados em vendê-lo, o que não seria difícil. Ele era uma das promessas daquela geração da Gávea que tinha nomes como Djalminha, Marquinhos, Paulo Nunes, Junior Baiano, além de outras entidades folclóricas do nosso futebol como Nélio e Fábio Augusto, de quem só sentíamos falta se suas figurinhas faltassem para completar o álbum do Campeonato Brasileiro. Desses caras todos, só Nélio e Junior Baiano tiveram carreira mais longa no clube rubro-negro, o que configura um verdadeiro case em gestão de talentos esperando para ser estudado em algum MBA Brasil afora. Paulo Nunes faria sucesso em duas parcerias, com Jardel no Grêmio e Oseias no Palmeiras, dois times campeões continentais com o menino oxigenado em campo; Marquinhos fez parte da última máquina palmeirense montada por Luxemburgo, lá em 1996; Djalminha, que também passou pelo Palmeiras, era o cérebro do Deportivo La Corunha campeão espanhol em 2000; Marcelinho, por sua vez, viria ao Parque São Jorge para mudar nossa identidade, conquistando dez títulos em oito anos, marca ainda mais espetacular se você lembrar que contam, nesse período de tempo, as férias remuneradas que ele passou em Valencia, antes de voltar ao Brasil naquele momento bárbaro da história do futebol em que o Corinthians readquiriu o passe do jogador numa promoção por telefone.

Se hoje o Gustavo pode dizer que não estamos habituados a perder, é tudo culpa do camisa 7. Pode não ser o ídolo maior dos corintianos, porque o flagelo muitas vezes produz ícones ainda mais preponderantes: Basílio, Rivellino, Sócrates, Neto; pode não ter sido uma figura lá muito exemplar, tão incoerente era a sua postura em campo e fora dele. Mas sempre foi decisivo, tanto carregando os operários de 1995 ao título da Copa do Brasil, quanto atuando ao lado de Ricardinho, Vampeta e Rincón – quatro nomes que, se pronunciados juntos, formam o nome de Deus em alguma língua hoje esquecida.

Tinha um excelente passe, num tempo em que ter um bom passe era obrigação se você jogava no meio campo, mas era ótimo definidor também, num tempo em que ter ser um bom finalizador não era tão comum assim se você jogava no meio campo. Abraçava a contradição aparente que há entre professar uma fé religiosa, provocar adversários em campo e ser chamado de traíra pelos próprios companheiros de time; era odiado por todas as torcidas rivais, e nós o abraçávamos ainda mais porque, sendo um facínora, era o nosso facínora, o cara que nunca se omitia. Errou aquele pênalti capital que ratificou a canonização do goleiro Marcos, e foi criticado pela torcida inteira, mas, quando a hora do pênalti decisivo surgiu, não se agachou para fora da possibilidade do erro.

Pé direito, anjo torto

O pênalti perdido naquele jogo, aliás, é um caso típico de como o jogador alterou nossa perspectiva sobre quem éramos, onde estávamos, onde gostaríamos de estar. Que espécie megalomania coletiva leva um grupo de torcedores a se sentir no direito de ameaçar, moral e fisicamente, jogadores que tinham acabado de perder a) uma semifinal de Libertadores da América b) contra o arquirrival c) nos pênaltis? Por maior que tenha sido a decepção acumulada por duas eliminações seguidas para o Palmeiras na nossa obsessão – e é preciso assumir a culpa, os obcecados éramos nós, não os jogadores – pelo torneio continental, ninguém chegaria ao ponto de perder a razão se não soubesse o que aquele pé 35,5 era capaz de fazer. Porque já tinha feito.

A verdade é que Marcelinho nos acostumou mal, aos títulos, às vitórias, ao coelho tirado da cartola na hora crítica do jogo. Houve um tempo em que comemorávamos seus gols e isso já nos alegrava; depois percebemos que era perfeitamente natural comemorar as faltas sofridas perto da área; por último, notamos que não havia loucura alguma em comemorar as faltas sofridas em todo e qualquer lugar depois da metade do campo. Enquanto ele ajeitava a bola, à procura da batida perfeita muito antes que aquele outro Marcelo, a gente imaginava a trajetória do chute e a realidade, depois, simplesmente se adequava. Trago aqui, para entreter sua viagem, estes exemplos:

O vídeo da final do Campeonato Paulista de 1995 não permite perceber tão claramente, mas se você reparar nos replays dá para ver o desalento nos olhos palmeirenses logo depois de cometida a falta (a partir de 1:35). Todo mundo sabia o que ia acontecer – dizem que antes do jogo teve até palestra de prevenção contra esse tipo de catástrofe. É de se louvar, no entanto, o salto do Müller, debaixo da trave tentando alcançar a bola, um movimento digno de dança contemporânea em que o atacante encena, no gesto melancólico de acompanhar a passagem da bola sobre sua cabeça, toda a inutilidade da luta humana contra os desígnios do destino.

Outro gol contra o Palmeiras, porque eu também preciso exorcizar o horror de 2000. Aqui, na fase preliminar do mesmo Paulistão de 95, Veloso manda abrir a barreira e Marcelinho, agindo como um instrumento da retribuição divina, decreta a punição ao goleiro descrente, para que as consequências de seu mau uso do livre arbítrio servissem de exemplo aos homens presentes no Pacaembu, paradoxalmente incrédulos com aquele chute.

Por último, um gol contra a Portuguesa (a partir de 1:40), o primeiro dele vestindo a camisa certa. Um gol que, se não é propriamente fenomenal – fora o fato de que ele nos preparou para a rotina de ser feliz antes mesmo que a felicidade soubesse de si mesma –, estabelece uma conexão simbólica com a história recente do Corinthians. Chegamos ao primeiro título nacional por obra de cobranças de falta kardecistas que nos fizeram um dia supor que, se o futebol não exigisse condicionamento físico, Neto seria o novo Pelé. O fato de Marcelinho ter se revelado ainda mais fatal nesse tipo de lance soa, no mínimo, como uma passagem de bastão, um sinal de que estávamos em bom caminho e que nele seguiríamos em segurança, sob a guarda do pé de um anjo.

Eu disse que meu palpite era inevitavelmente místico, certo?