TRABALHO

Por que ainda encobrimos maus profissionais?

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Eu fui apresentada ao mundo corporativo aos 15 anos de idade, em um curso preparatório. Desde então eu sempre ouvi, e concordei, com a máxima: "não se deve falar mal do ex-chefe ou das empresas pelas quais você trabalhou, pega mal na entrevista". Afinal, o recrutador vai pensar que na primeira oportunidade você falará mal deles também.

Sabe, troquei de empresa 4 vezes, e nunca falei mal de ninguém em entrevistas, não porque eu não queria, mas porque eu não podia. "Pega mal", eles disseram e eu ouvi. Mas precisamos conversar sobre isso.

Até hoje eu fico meio sem jeito de responder a pergunta "por que você saiu desse emprego?". E isso acontece porque me disseram que eu não posso falar mal de ninguém. Então como responder a essa pergunta sem dizer que saí porque era diariamente moralmente assediada, porque trabalhava em um ambiente tóxico, que minha chefe não me respeitava, que eu era diariamente diminuída pra engrandecer o ego de outras pessoas.

Eu não quero falar mal da empresa, nem dessas pessoas.

Eu quero falar do que aconteceu comigo.

Quero falar com sinceridade do que aconteceu sem que pareça que eu estou falando mal de alguém. Afinal, até quando ficaremos encobrindo esses maus profissionais? Até quando vão nos culpar pelo que passamos? Você não tem culpa de terem te tratado assim. Se uma empresa não quer que um funcionário fale mal dela, é só não dar motivos para isso.

Eu estou cansada de me sentir cúmplice do chefe assediador. Quem cala consente e, me desculpe, mas não dá mais pra consentir com assédio. Não dá.

A gente sabe que muitas empresas fazem o que podem para seus funcionários e que, mesmo assim, é difícil agradar todo mundo. A mesma coisa acontece com chefes, eles podem ser maravilhosos para uns e péssimos para outros, são muitos fatores a se considerar, como a expectativa de cada um, por exemplo. Mas tendo como a base para a existência e relacionamento humano o respeito, uma empresa ou chefe que não cumpre com esse requisito tão básico com o funcionário não pode ser poupado(a).

É preciso ter empatia.

Com a vítima, mas também com o assediador. Parece óbvio, mas não é. Certamente um ex-funcionário reclamando ou expondo algum ponto negativo será julgado, na maioria das vezes, como ingrato. E é esse julgamento que precisa acabar. Encobrir coisas ruins em empregos anteriores para conseguir um novo emprego não deveria ser normal, mas infelizmente estamos lidando com uma moeda muita cara. Quem vai jogar fora a oportunidade de um novo emprego falando a verdade? Falando que foi assediado moralmente pelo chefe correndo o risco de ser julgado como ingrato e cheio de mimimi? Ninguém quer parecer o vilão da história.

E quanto à empatia com o assediador?
Aprendi que só existe empatia com conexão. Que só é possível sentir empatia quando aceitamos nossa vulnerabilidade e nos abrimos à conexão com o outro. É muito difícil, nesse caso, querer se conectar com uma pessoa que você julga "ruim", mas é necessário, até mesmo para, quem sabe, acabar com esse julgamento de valor. Tentar entender por que as pessoas agem como agem, por que fazem o que fazem, por que desrespeitam quem desrespeitam. Parece absurdo, mas é um ótimo exercício, pois, dessa forma, conseguimos nos expressar de forma não crítica ao outro ou à empresa, mas de forma empática, sem julgamentos, somente fatos.

Tentar criar empatia com quem te assediou é como analisar a situação de fora e descobrir como falar dela sem julgar e ofender ninguém. Quando nos expressamos dessa forma, nossas palavras são aceitas de forma mais fácil e o julgamento é reduzido.

Você precisa de um tempo.

Pra entender o que aconteceu com você e por que aconteceu o que aconteceu com você. Precisa de um tempo para descobrir como se expressar com mais tranquilidade e de forma mais empática. E também precisa de um tempo para aceitar que, mesmo assim, nem sempre você terá empatia do outro lado. As pessoas interpretam como querem aquilo que você diz, então é preciso estar ciente disso para não ficar frustrado no futuro.

Mas, falando em frustração, como seria trabalhar para outra empresa que não está nem aí pra você? Se é preciso mentir para ser aceito em algum lugar, é nesse lugar que você quer estar?

Eu não, não mais.