OUTROS

AS(SOMBRA)ÇÃO

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O ato de caminhar nunca mais vai ser o mesmo.
Olho sempre para os lados.
Mas não como fazia antes.
Antes era mania.
Olhava por olhar.
Sabia que nada me aconteceria.

Agora olho.
Observo.
Atentamente procuro o ele.
O ele.
O ele, sem nome.
Sem rosto.
Sem personalidade.

O ele, que em questão de minutos, acabou com a minha vida.

A garotinha que andava despreocupada.
Com fones de ouvido.
Imersa nos hits da semana.
Não existe mais.

A garotinha que andava saltitando.
Dançante por ai.
Com destinos definidos.
Pensamentos a mil a mente.
E uma mutante e espontânea rota; ainda a ser traçada com cada passo.
Não existe mais.

O sem cara a matou.
Sugou dela toda a cor.
E com toques bruscos fez surgirem os cortes.
Dos rasgos causados com seus movimentos afiados
Ecoam um quase inaudível “socorro”.

Antes eu caminhava pela rua.
Agora ando.
Rasteira.
Ligeira.
Fugida.

O destino não é mais definido.
Não tem como me esconder.
O mundo se tornou perigoso demais.
E eu, uma frágil peça.
Quase irrelevante nesse quebra-cabeça.

Mas aqui
Mesmo na minha insignificância
Fui encontrada.
Ele me achou.

Um fantasma.
Fez do susto seu aliado.
E em questão de segundos levou tudo.
A dignidade.
O orgulho.
A vontade.
E quase desisti.

Mas ainda estou aqui.
Sigo andando.
Espero um dia conseguir voltar a caminhar.