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Você sabe qual é a prática médica mais antiga do mundo?

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Você sabe qual é a prática médica mais antiga do mundo?

Corpo, mente e espírito. Para a medicina Ayurveda, a saúde não pode ser mantida se não há equilíbrio entre essas três dimensões humanas. Em sânscrito antigo, “veda” significa conhecimento, enquanto “ayur” é vida. Segundo essa sabedoria milenar indiana, saúde é sinônimo de felicidade e só é alcançada quando há a tal da “iluminação”, que nada mais é do que a prática de uma moralidade elevada, o aprendizado do conhecimento de todas as coisas e a harmonia das relações humanas (consigo mesmo e com o próximo). Parece papo dos gurus atuais, mas na verdade, os sacerdotes védicos registraram em texto essa filosofia há 5 mil anos, o que coloca a Ayurveda como a medicina mais antiga do mundo que se tem notícia. Essa ciência não é só pré-clássica como ainda está em prática na Índia, Sri Lanka e Indonésia, como parte do sistema público nacional de saúde.

Esses manuscritos indicam que esse conhecimento sobre a felicidade e a saúde começou a ser repassado no norte da Índia há 12 mil anos, por meio das tradições orais entre sacerdotes de civilizações de período de transição entre o paleolítico e o neolítico. A Arqueologia nos diz que, pelo menos há 7 mil anos, os povos da fronteira entre Índia e Paquistão já haviam instituído assentamentos e pequenas cidades com avançada sociedade para a época e que evoluíram e edificaram eficientes sistemas de irrigação, agricultura, pecuária, organização social, arte e religião.

Na imagem abaixo vemos a reconstituição da cidade localizada em Mohenjo Daro, encontrada em 1922, no centro-sudeste do Paquistão, e que foi importante centro urbano e comercial por volta de 3.000 a.C. e 2.600 a.C., na época do florescimento da civilização do Vale do Rio Indo. As escavações revelaram que a força motriz de toda a cidade era a água e que, além de banhos termais públicos e privados, as casas possuíam vasos sanitários com sistema hidráulico de descarga dos resíduos, algo que nem mesmo os romanos instituíram. Estima-se que o número de habitantes tenha sido de 40 mil pessoas.

Reconstituição da cidade arqueológica em Mohenjo Daro, no Paquistão, pertencente à civilização do Vale do Rio Indo.
Reconstituição da cidade arqueológica em Mohenjo Daro, no Paquistão, pertencente à civilização do Vale do Rio Indo.

Tanto a Arqueologia quanto os textos mais antigos da Ayurveda não são muito exatos em datar a origem correta desse sistema de conhecimentos e práticas e nem como tudo começou. Há, porém, os escritos dos professores e cirurgiões Sushruta (VI a.C.) e Charaka (I d.C.), que contam, em suma, a mitologia (há quem diga que seja verdade) de como Brahma, ao ver o povo perecer doente, resolveu dar os conhecimentos da saúde e da felicidade para divindades (devas) para que pudessem transmiti-los aos homens. Um desses deuses é Dhanvantari, que reencarnou como um rei em Varanasi e ensinou a ciência da vida para discípulos, entre eles, o próprio Sushruta.

Representação da divindade indiana Dhanvantari, deus da Ayurveda.
Representação da divindade indiana Dhanvantari, deus da Ayurveda.

De fato, tal coisa é de se imaginar, já que, em era remotas, quando as pessoas começavam a domesticar animais e polir pedras, já havia os conceitos ayurvédicos do psicossoma, do funcionamento dos tecidos e corpos, além das ideias contemporâneas de “mente” (que só surgiu no ocidente sob esta forma com o advento da Psicologia, tratamento que já era aplicado na Índia antes de Cristo).

A cada novo tempo, os textos védicos foram evoluindo com as contribuições de importantes nomes da medicina Ayurveda ao longo de todos esses milênios. O conhecimento inicial se desdobrou em quatro correntes filosóficas e cada corrente acabou por também se desmembrar em diferentes áreas práticas (oftalmologia, rejuvenescimento, psicologia, ginecologia e obstetrícia, entre várias outras especialidades).

A prática milenar da Ayurveda ganhou adeptos em toda a Ásia e serviu de paradigma para que o chineses desenvolvessem sua própria medicina, com base na própria mitologia e elementos que consideravam importantes (MTC- Medicina Tradicional Chinesa). Até hoje, em geral, muitos terapeutas ayurvédicos no Ocidente também estudam a MTC. O intercâmbio comercial com as grandes civilizações do Oriente Médio também levou os conhecimentos da medicina indiana até os árabes. Há registros de que na Pérsia, na corte do califa de Bagdá, Harun al-Rashid (VIII d.C.), o médico indiano Maka traduziu para o persa todo o conteúdo assinado por Sushruta (o manuscrito Sushruta Samhita). Em seguida, os ensinamentos do professor e cirurgião hindu foram divulgados em árabe e constituíram o primeiro hospital do mundo islâmico, sendo algumas pouquíssimas práticas, posteriormente, adotadas por templários e hospitaleiros europeus no tempo das Cruzadas.

Retrato medieval do califa de Bagdá, Harun al-Rashid (VIII d.C.). Artista anônimo.
Retrato medieval do califa de Bagdá, Harun al-Rashid (VIII d.C.). Artista anônimo.

Esses conhecimentos da Ayurveda na Índia, contudo, quase foram extintos entre os séculos XII e XIX, tanto por conta das invasões sofridas pela Índia quanto pelo domínio britânico que proibiu, sob pena de morte, a prática da Ayurveda. Acreditavam, os funcionários da Rainha Vitória, que se tratava de uma atividade pagã, perigosa e contra o Cristianismo. A maior parte dos escritos antigos foram destruídos por serem considerados primitivos.

Na região indiana de Kerala, contudo, os reis optaram por esconder as escrituras mais importantes e manter a prática em sigilo, dentro dos muros dos próprios palácios, onde o império ainda não tinha total domínio. Patrocinaram em segredo médicos que passaram a atuar em sigilo absoluto ao longo de 150 anos de domínio inglês. Os acontecimentos do século XX permitiram que a medicina Ayurveda como se praticava em Kerala ressurgisse e voltasse a ser ensinada, ainda que em escala menor e com conhecimentos reduzidos pela destruição dos pergaminhos pelos britânicos.

Atualmente, a Ayurveda não somente é praticada oficialmente na Ásia como vem crescendo no Ocidente como terapia complementar. Desde os anos 90 vem recebendo numerosos adeptos (ironicamente) no próprio Reino Unido, na Itália e Espanha (mais voltada para o rejuvenescimento), e nas Américas de modo geral (Estados Unidos e Brasil, majoritariamente).

No Brasil, a receptividade da Ayurveda tem sido grande. A base dos tratamentos indianos é de fitoterapia e tem correspondência com os conhecimentos populares brasileiros dos antigos e das tradições indígenas. O uso das ervas, tanto in natura, quanto em pó ou prensadas, é o cerne das práticas ayurvédicas, tal como sempre foi entre as populações brasileiras, especialmente, as mais populares.

Quer conhecer mais sobre essas práticas? Semana que vem tem mais.