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Documentário mostra a vida de Cuba pela voz dos cubanos

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Documentário mostra a vida de Cuba pela voz dos cubanos

Ao navegar no streaming, decerto que muita gente franze o rosto quando entra no hall dos documentários. Não sendo um curioso, estudante de ciências humanas ou se não há em vista nenhum trabalho de história para entregar no dia seguinte, dificilmente se troca uma série envolvente por horas de narração sobre as Cruzadas ou a Crise dos Mísseis.

Jon Alpert talvez mude sua opinião. O produtor e documentarista nova-iorquino, agraciado com o Emmy e indicado ao Oscar de melhor documentário, ganha espaço no Netflix em 2017 com “Cuba and the Cameraman”, lançado no final de novembro.

Vividas entre câmeras e viagens, as quase sete décadas da vida de Jon foram uma verdadeira jornada pela informação. Ao lado da esposa e cineasta Keiko Tsuno, o jornalista buscou a jugular da verdade ao retratar a vida cotidiana sem academicismo ou grandes edições. O doc lançado no final deste ano é resultado das andanças de Jon em uma dezena de idas a Havana e dá uma visão visceral e panorâmica do que foi o país entre o meio do Século XX e os dias de hoje.

Entre idas e vindas, foram quarenta anos na capital caribenha. Atrás de personagens que pudessem dar um tom de vida à história, Alpert vai de encontro ao dia-a-dia de famílias tipicamente cubanas para desenhar sua narrativa sem grandes contextualizações. Por meio dos relatos, é possível ver aflorar uma verdade social cheia de sinceridade, principalmente no casamento entre o cubano e o socialismo.

As gravações começam na lua de mel. O então líder Fidel Castro dava as mãos ao Comunismo e vivia o auge de sua relação representativa, conduzindo Cuba ao milagre econômico ao romper a relação de submissão ao “temível imperialismo” dos vizinhos de cima, como contam.

Por trás da histeria coletiva ao redor de Fidel, ovacionado por todo lado, Jon e sua câmera ficam à espreita. Em um dos tumultuados encontros, o icônico líder da Revolução estranha a presença do norte-americano, como se tivesse detectado um ianque entre seus conterrâneos. Daí em diante, o cameraman dança em cima da figura carismática de Castro em uma inesperada relação de amizade. A intenção de contar a história pelo olhar do verdadeiro do povo de Cuba vai além – e não há como deixar de assistir.

Documentário mostra a vida de Cuba pela voz dos cubanos

Pela voz e olhar de quem vive

O convite à intimidade de Fidel é a dose de curiosidade que, junto com a poesia da vida cotidiana, faz do documentário uma preciosa exceção. É possível mergulhar na história sem perder o ar, ouvindo versões de quem realmente viveu sob as controvérsias comunistas ilhadas pelo Mar do Caribe.

Anos mais tarde, no seio da crise e somando encontros com Fidel, a incansável família Alpert expõe a decadência do país. Com a derrocada dos países comunistas no início da década de 90, o financiamento soviético se esgota e dá cabo à utopia da Revolução. Além da precariedade de hospitais e da escassez de comida, as lentes mostram que o amor pelo líder “supremo” se mantém, ainda que sem a conhecida unanimidade. No desenrolar da coisa, o casamento não acaba, mas se renova.

Jon entra nos anos 2000 com novos equipamentos e os mesmos personagens. Os participantes encaram uma série de mudanças pessoais caprichosas, deixando um quê de ficção. Sem saber, mulheres, homens, mães e filhos de Cuba contam a própria história e a do mundo com a típica falta de escrúpulo de quem fala da própria banalidade. Jon foi feliz em fazer dessa simplicidade, matéria prima de um dos melhores documentários de 2017 a um mês do Natal. Vale dar uma chance.