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Gota d'água volta como ode a Chico

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Premiada, nova versão da obra traz tudo que não deve faltar em um espetáculo

Gota d'água volta como ode a Chico

Enquanto Joana se descabelava tal qual uma rosa em despedaço, o público ruía. Vivida brilhantemente por Laila Garin no remake delirante de Gota D'água (1975) de Chico Buarque e Paulo Pontes, a personagem da solidão mais vívida dos palcos brasileiros levou a platéia - de sorte - à loucura. 

Dirigido e remontado por Rafael Gomes, o espetáculo trouxe a rica interpretação de um caso de amor cheio de realidade brasileira, com um show de lirismo e gingado típicos da obra de Chico em seus tempos áureos de poesia. Com o cuidado de enxugar uma narrativa densa, talvez em respeito ao legado de Bibi Ferreira há quatro décadas, a direção se lançou à dura tarefa de colocar dois elementos, em pleno fervor, em menos de duas horas de apresentação.

Feita em cima de músicas consagradas como Mulheres de Atenas (1976), Cálice e Um Pedaço de Mim (1978), a trama se monta nas entranhas do jogo de atração de Joana e Jasão (vivido por Alejandro Claveaux). Em uma verdadeira dança, mulher e homem se espreitam enquanto declamam o amor a plenos pulmões, com traços animalescos de revirar as vísceras. Sim, Gota D'água [A seco] seca o que se tem de morto - pelo menos durante os batuques e os refões que fazem 1h40 passar em um estalo. 

Reduzido em fogo alto 

A adaptação feita pelo jovem Rafael Gomes deu boa luz aos corpos de Jasão e Joana, tirando outros 13 personagens da produção original. Trazendo a tragédia grega do Mito da Medeia aos dramas atuais, a obra centraliza o samba como elemento de partida, em um suposto Rio de Janeiro de periferia. O choque entre elite e pobreza, que acaba por desenhar o a história que abafa o fogo do amor dos protagonistas, leva aos palcos uma crítica harmoniosa e sem escrúpulos. Haja poder síntese. 

Joana, em um desabafo compilado, remete à peça a sua questão amorosa

Novas músicas e  premiação 

A reedição condensada de Gota D'água resgata Chico Buarque do começo ao fim. Diferente de sua mãe de 40 anos, a versão adaptada ganha corpo com oitos canções (o dobro), afundando os olhos atentos em um musical de primeira linha. Laila Garin, em um show à parte, escapa do espírito amolecido de Joana para soltar a voz em uma mistura impecável de performances, o que acabou rendendo o posto de melhor atriz no Prêmio Bibi Ferreira, entregue no Teatro Santander no último dia 18 de outubro. 

Alem da consagração de Laila, Wagner Antônio levou pelo melhor desenho de som, feito dividido com a banda de cinco instrumentistas que deram vida real à trilha sonora envolvente da exibição. Curiosamente, o nome da festa dedicada a premiar musicais fez justiça ao deixar Laila Garin pegar o bastão tão brilhantemente representado por Bibi em meados de 75. 

Após gastar o palco do teatros de São Paulo e dar as caras na Virada Cultural 2017, a peça sai de circuito e espera novas datas de apresentação pelo país, com atualizações feitas pela Página Oficial. Aos eternos devotos da obra de Chico e fãs de um entretenimento de encher os olhos, resta esperar a próxima oportunidade de ver Jasão e Joana se acabarem em cena - e levarem junto quem sentar para assistir.