ECONOMIA

2018, o ano em que lembraremos que crescimento econômico não é tudo

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Para que os números convençam em 2018, é preciso que eles sejam a soma do bem-estar de todos os brasileiros

2018, o ano em que lembraremos que crescimento econômico não é tudo

Soma zero? Eleitores vão mesmo ganhar algo com a economia? (Foto: Pietro Zuco/Flickr)

Após uma recessão que nos deixou 8,2% mais pobres em apenas dois anos, nós brasileiros estamos doidos por notícias positivas na economia. Há 12 milhões de desempregados à espera de algum ganha-pão; 62% das famílias estão endividadas (sendo que, destas, 26% têm dívidas em atraso); 46% dos universitários que dependem do Fies estão inadimplentes... o que não falta é gente torcendo para que o Brasil volte a crescer em 2018. Para os especialistas, há razões para o otimismo. A principal bola de cristal do mercado, o Boletim Focus do Banco Central, mostra que, na média, as instituições financeiras projetam uma alta de 2,6% para o PIB no ano que vem. Se confirmado, será o melhor número desde 2013, quando crescemos 3%. Todos têm tudo, portanto, para comemorar o Ano Novo, não? Nem tanto. Talvez descubramos que o preço de crescer será alto demais.

Vejamos dois potenciais puxadores do PIB em 2018. O primeiro é a reforma trabalhista, vendida pelo governo e pelo empresariado como a panaceia que gerará empregos para todos. As primeiras evidências, contudo, indicam que não será bem assim. Trabalhadores intermitentes, por exemplo, ver-se-ão na esdrúxula situação de, literalmente, ter de pagar para trabalhar, já que deverão tirar do próprio bolso os impostos que a empresa não recolherá. Outras categorias – professores universitários inclusive – começam a ver demissões em massa, como foi o caso da Estácio. Logo, talvez o desemprego até caia no ano que vem, com base nas novas regras trabalhistas, mas as vagas geradas serão de má qualidade: baixos salários, elevada rotatividade, vínculos precários, poucos direitos, muitos impostos.

Números complexos

A segunda propagandeada alavanca da economia será a reforma da previdência. Sim, é verdade: se nada for feito, em algum ponto do futuro, o governo simplesmente não terá dinheiro para pagar os aposentados. De três, uma: ou deixará os velhinhos à míngua, ou abandonará a prestação de serviços públicos apenas para pagá-los, ou “fabricará” dinheiro para cobrir todos os gastos, gerando uma baita inflação. É correto, por mais doloroso que seja, fazer alguma coisa já. Mas nada garante que a reforma proposta pelo presidente Michel Temer seja boa e vá funcionar. Na verdade, à medida que Temer se afunda, arrasta a reforma consigo. Se fizer um projeto meia-sola, corre o risco de prejudicar, em vez de ajudar, a economia. Na prática, os brasileiros entenderão apenas que trabalharão mais para se aposentar. E, pior: sem garantia nenhuma de que conseguirão.

Ao mesmo tempo, a desigualdade social, que mal-e-mal recuou nos últimos anos, tende a crescer. Parte dos brasileiros terá a sensação de que o país só melhora para os outros. Os mais pobres, que dependem da má qualidade dos serviços públicos, continuarão acordando de madrugada, em seus bairros violentos, para torcer que um ônibus cheio e caro chegue logo, antes que alguém os assalte. Com o dinheiro contado, seja porque estão desempregados, seja porque trabalham informalmente ou de modo intermitente, chegarão um hospital público com uma fila quilométrica, apenas para descobrirem que seu exame foi remarcado para alguns meses depois.

Soma zero?

Enquanto isso, algum economista ou político dirá que as coisas estão melhores, afinal, os números não mentem. Tampouco, contam toda a verdade. O fato é que crescer a qualquer custo não melhorará as condições de vida do povo. Não é por acaso que alguns pré-candidatos e parte dos economistas admitem que é necessário alguém capaz de conciliar economia e sensibilidade social. Presidenciáveis como Henrique Meirelles, ministro da Fazenda de Temer, e Geraldo Alckmin, que se equilibra entre o apoio às reformas e a oposição ao governo, querem tirar uma casquinha do crescimento do PIB, no ano que vem, para faturar a eleição.

Mas, se os eleitores não sentirem, na prática, aquilo mostrado na televisão, pensarão ou que estão sendo enganados, ou que o crescimento é só para os "outros". Tão ruim quanto viver num país que não cresce, é sentir-se excluído do desenvolvimento. Para que os números convençam em 2018, é preciso que eles sejam a soma do bem-estar de todos os brasileiros.