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3 casos de racismo em 15 dias: universitários e professores tomam bomba

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Se é verdade que o conhecimento abre os nossos olhos, a soberba de ter um diploma universitário está cegando muita gente. Mas um pedaço de papel nunca provou sabedoria

3 casos de racismo em 15 dias: universitários e professores tomam bomba
"Paraíso perdido": racismo de universitários e professores mostra como eles gostariam que fosse o Brasil (Obra: Um jantar brasileiro/Debret)

Nos últimos 15 dias, três casos de racismo envolvendo universitários chegaram à mídia. No primeiro, Gustavo Metropolo, estudante do quarto semestre de administração de empresas da FGV, enviou uma mensagem no whatsapp, chamando outro aluno, João Gilberto Lima, de escravo e pedindo para que seu “dono” se identificasse. Dias depois, José Guilherme de Almeida, professor de turismo no Instituto Federal de São Paulo, publicou em sua conta no Facebook que odeia “pretos e pardos” em hotéis. Nesta sexta-feira (23), alunos denunciaram pichações racistas e homofóbicas em um dos banheiros femininos da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo.

As manifestações racistas são um exemplo claro do quanto o Brasil é tolerante, hospitaleiro, acolhedor e aberto à diversidade apenas em suas próprias fantasias. No cotidiano, uma parte dos brasileiros trata a coices quem não é seu semelhante – e, como se sabe, coices são próprios de animais como cavalos, mulas, jumentos e burros... Por falar em burrice, é ainda mais sintomático que essas manifestações racistas ocorram em universidades. Teoricamente, alguém que chega a um curso superior tem um longo trajeto de instrução escolar: pré-escola, ensino fundamental e ensino médio. Ninguém entra numa faculdade sem ter mais de dez anos de ensino nas costas. É de se esperar, portanto, que as noções básicas de cidadania, tolerância e respeito ao próximo já tenham se incorporado à sua visão de mundo. Afinal, o objetivo dos primeiros anos de educação é que a criança e o jovem adquiram não apenas conhecimentos específicos, como português, física e matemática, mas também possam compreender o mundo em que se encontram.

Essa compreensão envolve a história de nossas profundas chagas sociais, as circunstâncias que empurram milhões de brasileiros para as margens da sociedade, o contato com nossas gritantes injustiças. Quando se observam os casos de racismo das últimas semanas, contudo, constata-se o básico: o sistema educacional brasileiro falhou e falha reiteradamente em ampliar a visão de mundo de nossos estudantes. É claro que há problemas estruturais gravíssimos que comprometem este trabalho: falta de dinheiro, de investimentos, de boas instalações, de treinamento adequado aos docentes etc., etc., etc. Somente um marciano não entenderia que, sem apoio público, não teremos ensino de qualidade.

Lições de ódio

Mas há um ponto que não depende de dinheiro, nem de recursos pedagógicos mirabolantes: a capacidade de sensibilizar os alunos pela palavra. Muitas vezes, uma conversa despretensiosa em sala de aula, a censura pública a um comentário intolerante, a contraposição de visões são muito mais eficazes para combater preconceitos e mal-entendidos, do que campanhas histriônicas. Educação e cidadania se constroem todo dia, e os professores são elementos fundamentais disso. São eles que transmitem o conhecimento e ajudam a formar (ao lado da família, dos amigos e de outras instituições) a visão de mundo das novas gerações. Ajudam, portanto, a quebrar ou reforçar preconceitos, discriminações, estereótipos.

Essa tarefa, contudo, fica muito mais complicada, quando os próprios professores ajudam a reproduzir os preconceitos e os vícios que danam o nosso país. É o caso de José Guilherme de Almeida, da IFSP, e de tantos outros que, de tempos em tempos, surgem desonrosamente nos noticiários. Em 2014, por exemplo, Rosa Marina Meyer, professora de Letras da PUC-RJ, ironizou a forma como um homem estava vestido no Aeroporto Santos Dummont. Ao postar sua foto no Facebook, perguntou se o local se transformara em uma rodoviária. Outros docentes, incluindo o próprio reitor da instituição, embarcaram nos comentários censuráveis. O caso ganhou repercussão nacional, quando foi denunciado e se identificou o retratado: tratava-se do advogado mineiro Marcelo Santos.

Se é verdade que o conhecimento abre os nossos olhos, a soberba de ter um diploma universitário está cegando muita gente. Um pedaço de papel nunca foi atestado de sabedoria.