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5 resoluções de Ano Novo para melhorarmos como pessoas e cidadãos

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Podemos continuar aprimorando a nossa aparentemente inesgotável capacidade de piorarmos a cada dia, mas que tal tentar algo diferente em 2018?

5 resoluções de Ano Novo para melhorarmos como pessoas e cidadãos

A hora é agora: feliz alma nova em 2018! (Foto: Fernando Maia/Divulgação Riotur)

Neste último texto para o Storia antes do Réveillon, pensei em fazer um trailer do filme de horror do qual participaremos em 2018, com uma feroz e desonesta guerra digital de todos contra todos durante as eleições, munida de muito fake news, os corruptos do moribundo governo Temer saqueando ao máximo o país, antes de serem enxotados, o assanhamento do STF para acobertá-los, os delírios de Donald Trump, Vladimir Putin e Kim Jong-Un, a anemia econômica etc. Tanto é que o título original que propus às minhas editoras era “Apertem os cintos e se benzam: 2018 vai começar.” Mas, depois de muito contemplar este sábado nublado da janela de meu apartamento; de acender incensos, colocar um CD de músicas underground da Ásia e aguar o pé de arruda que teima em secar, entendi o óbvio: caberá a mim, a você, a todos potencializar o que de melhor ou de pior acontecer em 2018.

Como num videogame, a maior parte do cenário e do roteiro já está dada, mas será a nossa habilidade de lidar com o que virá que definirá o resultado do jogo. Durante os próximos 12 meses (e o restante de nossas vidas), podemos cair novamente no erro de lavarmos as mãos e delegarmos a terceiros a trabalheira de transformar o Brasil num país decente. Podemos insistir, como moscas se esborrachando na janela, de que só mudaremos nossas atitudes pessoais, quando o “exemplo vier de cima”, dos políticos, dos empresários... Podemos continuar chafurdando no nosso cinismo, dizendo que quem segue a lei, no Brasil, é trouxa. Podemos, enfim, continuar aprimorando a nossa aparentemente inesgotável capacidade de piorarmos a cada dia, como pessoas, como cidadãos e como país.

Mas, você já conhece esse caminho. Já está nele há quantos anos? O que isso lhe trouxe? Muitas brigas com os amigos, alguns rompimentos, um país de m... e um governo de b... Um frio paralisante na espinha, quando pensa no futuro, um impulso de autopreservação que o leva a atropelar tudo e todos, uma certeza paranoica de que todos esses bastardos fdps, com exceção de você e de quem pensa como você, estão errados e, portanto, ferrando sua vida. E, no fim do dia, algumas pílulas ou goles de bebida para fazê-lo esquecer de que, há muito tempo, não há paz, nem sonhos, em seu sono.

Agora, me diga: você aguenta, sinceramente, outro ano como esse? Você está disposto a ser, novamente, qualquer coisa menos que um ser humano decente? A agir como uma besta-fera rugindo contra o que não lhe parece certo, apenas para abrir caminho entre os “covardes”, sem que ninguém mexa consigo – ainda que ao custo de muita solidão e raiva? Que tal experimentar outro caminho? Que tal tentar voltar a ser humano de novo? Aí vão cinco sugestões para sairmos de 2018 melhores, não apenas como brasileiros, mas, sobretudo, como pessoas:

1) Seja humilde e admita que você pode estar errado: é claro que reconhecer um erro machuca o ego, ainda mais numa sociedade que ridiculariza quem falha, que valoriza likes e compartilhamentos de Facebook como se fossem a sagração de Nossa Senhora. Mas, acredite, a pior coisa de você ignorar a realidade é que ela não o ignora de volta. Insistir que algo está correto, apenas porque você acha ou não quer perder uma discussão, é a mesma coisa de colocar a mão no fogo e dizer que não acontecerá nada. O primeiro e maior prejudicado é você. Historicamente, os dogmatismos religiosos e científicos apenas atrasam o desenvolvimento da humanidade. Pergunte a si mesmo: do jeito que é avesso a opiniões diferentes, você mandaria Giordano Bruno à fogueira? Será que não está queimando os Giordanos Brunos de hoje e passará para a história como outro troglodita? Logo você, que se julga tão esperto?

2) Entenda o que o outro está dizendo: nesse mundo afoito em que tudo precisa ser dito em 140 toques, poucos emojis ou uma ou duas fotos, perdemos a capacidade de entender o que nos dizem ou escrevem. Por pressa, preguiça, má formação educacional (o Brasil é mestre em formar universitários analfabetos funcionais) ou má intenção mesmo, tiramos conclusões antes mesmo de a pessoa completar seu raciocínio. Ouvir com atenção, ler com atenção, conversar com atenção dá um trabalho danado, mas é o único jeito de entendermos o que se passa com os outros e, aí sim, tomarmos uma posição – concordando ou não com nosso interlocutor.

3) Não seja binário: meu amigo, minha amiga, vamos falar francamente. Você tem 86 bilhões de neurônios no cérebro, divididos em 16 tipos. Essa massa de cerca de 1,5 quilo sobre seu pescoço é fruto de milhões de anos de evolução. Ela não perde a capacidade de se adaptar a novas situações, mesmo depois da idade adulta. Então, por que, Santo Deus, você só consegue usar dois... dois... dois neurônios: aquele do “meu amigo” e o do “meu inimigo”? O que fazem os seus outros 85.999.999.998 neurônios? Respeite-se! Pare com essa bobagem de que só há duas posições possíveis no mundo – a sua e a contra sua. Lamento dizer, mas o mundo não gira em torno de seu umbigo. Lembre-se de que, segundo cientistas, enxergamos cerca de 10 milhões de cores. Se você só consegue ver duas, e se sente bem com isso... bom, pode achar que não ofende sua inteligência, mas, com certeza, é um ultraje à Mãe Natureza!

4) Não deixe os outros serem binários: historicamente, a maior diferença entre os grandes líderes da Humanidade e os grandes espíritos de porco que enxovalharam o planeta é que os primeiros sempre lutaram, a seu modo, pela ampliação dos direitos, da compaixão e da solidariedade, enquanto os últimos (que queimem no Inferno eternamente!) preocuparam-se em fomentar o ódio, a discriminação e a exclusão. Buda, Cristo, Gandhi, Mandela, Martin Luther King, Platão, Aristóteles, Galileo, Da Vinci, Descartes, Avicena, Machado de Assis, Saramago, Umberto Eco, Pagu, Zumbi, Simone de Beauvoir, Susan Sontag e tantos outros sempre lutaram para incluir mais gente na sociedade. Para saber de que lado você e seus amigos estão, responda à simples pergunta: o que vocês defendem aumenta a liberdade, a igualdade, a empatia, a compaixão e a inclusão? Ou, pelo contrário, cria pretextos para justificar a miséria, a exclusão, o ódio, a condenação e a perseguição de pessoas? Parece que você não é tão “do bem” agora? Mude!

5) Faça pequenas bondades: o que custa dar uma esmola? Doar roupas que entopem o armário? Livros que você já não quer? Fazer trabalho voluntário? Ligar para os amigos e bater cinco minutos de papo (em vez de se esconder atrás do whatsapp e do Facebook)? Ceder seu lugar no metrô para alguém que precise (ainda que não seja o assento preferencial)? Segurar a bolsa de alguém no ônibus lotado? Dar bom dia ao porteiro (e saber seu nome), ser cuidadoso no trânsito, sorrir diante de uma grosseria... para que serve essa carapaça de rancor e mágoa que lhe pesa uma tonelada? Apenas para apequená-lo e protegê-lo do desconforto de mudar... e ser melhor. Tente! Pelo menos... tente!

Feliz 2018 para todos! E que o vazio dos corações cheios de ódio seja preenchido pelo amor de se sentir parte de um país e um mundo feitos realmente para todos!